Ângelo Brea

 

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1. Cântico

 

Pátria de sonho e pedra, de água, vento e lume,

ancorada num tempo de gloriosas lembranças,

terra de belas veigas onde sussurra o melro,

onde o milhafre voa com asas poderosas,

onde o avô observa os rumores marinhos

e fala sem palavras com olhos sempre livres.

 

Ó, belo país nosso, verdejante e amável,

terra de leite e mel, onde a luz descansa,

lar de vales ocultos no profundo das rias,

de tesouros perdidos que aguardam um conjuro,

de pétreas citânias que lembram o passado

e que parecem cheias de ecos e memórias.

 

País das nove ondas, terra onde dorme o sol,

altar das mães amadas que possuem silêncios

e de pais que nos lembram com sincero recordo.

Belo templo de luz e sol-pores aquosos,

horizontes azuis, colinas infinitas

sob o ocre do sol que decora as montanhas.

 

País da branca espuma e faróis gigantescos,

como antigos ciclopes que escrutam o mar.

Coração de Brigântia, terra onde Ith nasceu.

Aqui Dagda se oculta antes que venha a noite,

aqui dormem os reis caros a Ísis e Osíris,

na barca que procura a última morada.

                      

País dos dez mil castros e das dez mil montanhas

aguardando pacientes a hora em que de novo

os valentes guerreiros empunhem as espadas.

Solitária mansão de homens generosos

que erguem cada dia formosas esperanças.

Pátria de água e pedra, de sonho, vento e lume.

 

 

 

2. Terra

 

Terra de lentas sombras e silêncios

a navegar eternas madrugadas,

campos verdes, montanhas onduladas,

rias que em si possuem os rumores

ocultos das batalhas, veigas íntimas,

céus azuis e brancos, belas tardes

que desenham ocasos de saudade

em praias de águas limpas e sol-pores.

 

Terra de altos carvalhos, seiva ardente,

crepúsculos de cósmica lentura,

horizontes azuis onde murmura

o vento, onde a pétrea majestade

de castros e citânias se conforma.

País onde o silêncio é fruto amargo

à procura de um tempo solidário

em êxtases de dor e liberdade.

  

Nesta terra de sonhos, verde e calma,

onde habita o mar do fim do mundo,

há cores que se espelham no profundo

de uma ria de espumas coroada.

País de nevoeiros, lenta chuva

que cobre as montanhas, grandes bosques

de verdor infinito que percorre

o íntimo alecrim de flor dourada.

 

 

3. Cidade

 

Tenho os olhos cheios da luz desta cidade,

lentos olhos que sonham as torres florescidas,

os cantos verdecidos de sombra, os lamentos,

como ecos escuros que trespassam o dia

incendiando as olhadas de pedra e de sol-pores.

 

Tenho os olhos cheios desta luz aquosa

que enche os caminhos, as praças e os jardins;

coração quase livre, imensas lanças brancas

com setas de granito ou eternos mistérios

que abalam nas águas de uma fonte antiga.

 

Tenho os olhos cheios de cidade e de pedra,

abertos para ver desnorteados cometas

que pairam sobre as torres, imóveis e parados

os músicos que cessam o seu canto imortal

sob as prístinas asas do povo nunca eleito.

 

A cidade possui a palavra precisa

numa espiral de pedra, labirintos de luz,

ocasos sensitivos que abarcam o tempo,

altar de almas puras, de corações valentes

que procuram vitórias sob a luz das estrelas.

 

Anseio os lamentos, a dor desta cidade,

as chagas rumorosas do orvalho feito pedra

nos traços milenários das mais belas estátuas;

anseio esta cidade, o vento que parece

conhecer cada rua, cada nova palavra.

 

Tenho os olhos cheios da luz desta cidade,

do sol que se reflecte com dourados matizes;

tenho a memória ardida, o sentido aberto

a cantar cada várzea, cada formosa árvore

nesta noite singela do ser em que moramos.

 

 

4. (Aos poetas desta terra)

 

Cantai as doces cores deste país aquoso

em que abala o tempo em ondas de saudade,

cantai os verdes campos, as várzeas sensitivas,

os horizontes calmos de azul imensidade.

 

Cantai o eco místico dos vales florescidos

entre altos carvalhos de centenário alento,

olhai cada regato sob as pôlas das árvores,

sob a lua profunda onde sussurra o vento.

 

Admirai as montanhas de graníticas abas,

os cumes coroados de um brilho cintilante,

cada ria distante, cada eco nos bosques,

cada nova palavra num corpo de diamante.

 

Procurai esta terra nas mãos dos mais humildes,

nos campos sempre abertos, nos mares trabalhados,

conservai cada árvore, cada ponte ou caminho,

cada erva molhada nos lares sempre amados.

 

Assim não morrerá o eco deste verso,

porque a nossa memória é um antigo destino,

uma palavra amável, uma cantiga oculta,

ou um riso de prata sob um mar cristalino.

 

 

11.

 

No centro desta noite, sob a luz das estrelas,

a terra fica triste no seu sonho calado.

As luzes das aldeias são só pontos difusos

a lutar com as sombras que ocupam o horizonte

nesse rasto subtil de horas declinadas.

 

As árvores observam os rumores do vento

e parecem unir-se num abraço supremo

contra o frio da noite. No seu trono de prata

meia lua aparece entre nuvens obscuras

a beber do silêncio imagens olvidadas.

 

Há um canto sonoro que cobre o meu país

nestas noites inquietas que nascem desde o nada.

A lua guarda os castros, as antas soterradas

que protegem as cinzas dos nobres de há mil anos

frente a um mar hoje calmo ou num bosque encantado.

 

Nestas noite eu alço o meu verso dorido

por tudo o que desejo: o tempo, a luz, a vida,

e o amor a esta terra.  Há um eco remoto

que conhece as palavras mais belas, as lembranças,

e o nome das estrelas a sonhar alvoradas.

 

 

14.

 

  No horizonte adensam-se as sombras

neste sol-pôr de nuvens violáceas,

cai a noite e a luz discorre lânguida

por pedras milenárias e remotas.

A chuva faz caminhos, novas formas

no granito das torres trabalhadas:

No horizonte adensam-se as sombras

como um dossel cinzento sobre a alma.

Há um eco de pedras cinzeladas

pelos sulcos das águas que renovam

o mistério do eterno, nessa hora

em que no céu alastram as palavras

e no horizonte se adensam as sombras.

 

 

16. Pórtico

 

Há um eco de pedra sobre as praças,

a chuva faz caminhos

na pele das estátuas,

traça linhas de fé, em remoinhos,

e sob a luz difusa cria sombras

de perdidas palavras, mundos idos,

ou de sonhos que surgem do infinito.

Ressoa no silêncio cada passo,

cada voz peregrina, cada eco,

e em cada canto novo torna o tempo

à lenta majestade

dos arcos levemente levantados

que sulcam as abóbadas de pedra

como lírios de luz ou como estrelas.

  

Os rostos dos profetas bebem sombras

nos seus tronos dourados,

há cânticos que ecoam

na última arquivolta onde ousados

anciãos  tocam harpas de som límpido

e flautas milenárias que proclamam

a glória apocalíptica das almas.

Os anjos portam a cruz, a coluna,

a coroa de espinhas e a lança,

o flagelo, a esponja e a cana,

os cravos e a cartela,

a sua tristeza é lenta e profunda

aos lados do Cordeiro, no seu trono

e na Corte celeste vitorioso.

 

O Pantocrator mostra as mãos chagadas

entre o anjo e o leão

e entre o boi e a águia.

O povo de Deus alça a sua oração

e caminha veloz após o anjo

que conduz à glória aos elegidos,

pois é chegado o dia do Juízo.

Na pilastra, numa aura dourada,

belo rosto barbado, olhos claros,

a sorrir docemente num estrado

de símbolos celestes,

o apóstolo recebe cada alma

na bela catedral onde o caminho

é um pórtico que aguarda o peregrino.

  

As mãos possuem o mármore infinito

em ciclos de saudade,

na coluna há um ritmo

de silêncios a olhar a imensidade.

Prostrado de joelhos está o mestre

com o seu coração de pedra e tempo

a cinzelar as portas do universo.

 

 

17.

 

Compostela tem uma voz rendida

em ondas de profunda imensidade

com olhares que vestem os lamentos

de palavras que aguardam os sol-pores.

Um horizonte pétreo que eterniza

o sentido do tempo feito arte,

rumorosas visões de terra e céu

ou névoas sobre os campos cada noite.

 

Um luzeiro traspassa o céu aberto,

e as formas trabalhadas, as estátuas,

as casas que parecem de ar e sombra

com linhas que transcendem os sentidos,

alçam cada momento novos cantos

à beleza das prístinas palavras

que percorrem as ruas, os recantos,

as praças revividas e os caminhos.

 

Há um mistério que flui em cada passo

e que eleva o nome mais profundo

no centro da memória e da esperança.

Compostela tem uma luz de séculos

e uma estrela na frente poderosa

que entrelaça nas mãos cada segundo

como um canto infinito de saudade

na pedra que parece além do tempo.

 

A luz de Compostela cria sombras

que transcendem a própria imensidade

de um rumor feito água e pedra viva.

As arquivoltas guardam os segredos

de um mão que dá forma a cada imagem...

Nas alturas um órgão ressoa

com ecos como estrelas, rostos claros,

e olhos cheios de luz e de mistério.

 

 

19. Hino dos guerreiros de Mill

 

Erguei novamente, guerreiros de Mill,

os arcos compridos e as longas espadas,

erguei-vos e sede valentes e fortes,

que brilhe um fulgor nas vossas miradas.

 

Erguei ao reflexo do triste luar

os cantos dotados de mágico acento,

deixai que os seus ecos traspassem a noite,

fazei que ressoem nas asas do vento.

 

Erguei novamente, nas harpas sonoras,

as grandes histórias do grande Agnomáin,

falai dos seus filhos Elloth e Laimflind,

dos fortes avôs, de Tai e Ogamáin.

 

Parti à vitória por longos caminhos,

com Donn e Erannan, com Colptha e com Ir,

vingai as afrentas, ganhai força e honra,

vencer ou morrer, alçar-se ou cair.

 

 

25. Ria

 

Um céu azul celeste cobre as águas da ria,

um cheiro a mar salgado, a sargaços e a areia

que se estende na praia num eterno perfume

de ondas que atravessam as linhas do horizonte.

Nas suaves montanhas que se espelham no mar

há bosques de pinheiros, carvalhos sensitivos

que possuem silêncios e presenças antigas,

como altos titãs, os montes poderosos

com os cumes lavrados de granito sereno

aguardam cada dia entre névoa e silêncio,

entre as duas ribeiras que se observam distantes.

A ria é como um campo de profundas estrelas

que reflectem nas águas os seus brilhos dourados

e tem no seu espírito a beleza que mora

no íntimo das ondas, no seu ritmo constante,

serena como um canto do mais fundo do mar.

 

 

26.

 

O mar parece calmo, mas em si mesmo esconde

violentas tormentas de espuma e de vento.

Agora leves ondas se aproximam à praia

sob altivos pinheiros e rochas ondulantes,

o sol cobre no céu o último trajecto

e Grían traz das rédeas os selvagens cavalos,

a ponto de chegar ao reino das penumbras.

      

Que rumor tão suave o das ondas que rompem

na lentura levíssima das sombras que se alongam,

uma explosão vermelha tingida de amarelos,

de ocres azulados e de nuvens de prata.

Que murmúrio infinito na eterna ondulação

das sombras quase eternas, esse vento que chega

a alçar os teus cabelos de brilhos cristalinos.

 

O mar possui a força dos deuses imortais,

a presença constante para além de nós mesmos,

traz em si mesmo hinos de costas esquecidas

de praias que cintilam sob a luz do luar.

Que estranho caminho para o reino das fadas

Emáin, a sempre verde, a terra mais amada,

na rota de ocidente, onde o sol descansa.

 

 

 

27. A Alexandre

 

Tens os olhos azuis sulcados de sol-pores

e vozes como estrelas que brilham sem palavras,

infinitas perguntas se juntam no teu peito

aguardando o instante de surgir neste mundo.

Tens os olhos azuis povoados de sol-pores

e há um canto de vida em cada um dos teus dias.

Porque tu és a esperança no negrume da noite,

boa nova sem fim ou um vento que alastra

no país dos nevoeiros, onde o sol descansa.

Saberás da incerteza de não termos história

olhando para as mãos calhadas dos avós,

para os rostos feridos pelas marcas do tempo.

E um dia, talvez, ao cruzar esta terra,

sonharás com a hora da nossa liberdade,

o dia em que de novo se ouçam as trombetas

e brilhem nas espadas as runas esquecidas,

os corvos em bandadas sulcarão o horizonte

e os filhos de Mill, novamente acordados,

erguerão as bandeiras e os cânticos de glória.

Saberás das batalhas do grande Oghamáin,

das conquistas de Brath e da bela Brigântia,

a gloriosa cidade amada de Breogão.

Algum dia terás nos teus olhos azuis

a imagem de uma ria a brilhar na manhã,

ou um vale esquecido onde mora o milhafre,

ou o sol sobre as torres da antiga Compostela,

a rutilante pérola que transcende os espaços.

Porque tu és a esperança no negrume da noite

e os teus olhos parecem sulcados de sol-pores.

 

 

 

30. Morte de Ith (fragmento)

 

 

O seu sangue dourado esbarrava nas tábuas,

sobre um manto de pele tiritava de frio,

empunhava a sua espada, cujo gume estilhado

tinha a ponta quebrada e perdido o seu brilho.

 

Ao seu lado Laghaid tristemente chorava,

Cis olhava espantado a profunda ferida,

era um mar espumante que coava do peito,

purpúreo e incessante como um rio de vida.

 

Foi ficando em silêncio toda a sua beleza,

apagou-se no alto toda a luz dos seus olhos,

a sua cor esmorece e uma névoa o envolve,  

mesmo assim lhes parece como um rei no seu trono.

 

Já também não sorria... Foi naquele momento

no que o sol mergulhava sobre a terra das fadas

que elevou a cabeça como um nobre guerreiro:

Os seus olhos abertos procuravam o nada.

 

O seu último alento foi o nome da amada,

a mirada ao seu filho e a lembrança da terra...

Suspirou docemente e deixou de mover-se,

parecia dormido sobre um leito de estrelas.

 

Os valentes guerreiros acenderam os fachos

e cobriram o rosto com um pano dourado,

sobre o peito a sua espada, aos seus pés o escudo

e o elmo fendido, ainda em sangue banhado.

 

Colocaram a nave na procura do leste,

e em silêncio ficaram ao arbítrio das ondas,

foi então que Amarguéin entonou o seu hino

que falava de sonhos de poder e de glória.

 

-"Atravessa este mundo na procura de Emáin,

ousado e bravo príncipe, oh, filho de Breogão,

gozosa e nova vida viverás nos seus campos,

sonharás nos seu bosques com o apelo do mar".

 

Aqueles belos ecos de prístina beleza

de uma harpa de prata surgiram sobre as águas,

tal era a sua pureza que as ondas comoveram

se houvesse nelas peitos e uma alma humana.

 

Contra a raça mortal dos ousados Gaedháil

mesmo o filho de Lir aplacou a sua cólera,

vogando sobre as águas como uma simples várzea,

coroado de ouro e ébrio de vitória.

 

- "Tornemos a Brigântia", ordenou debilmente

o valente Laghaid aos exaustos soldados,

quando o último raio dum sol-pôr tenebroso

tingiu de luz as velas e os fundos olhos claros.

 

 

 

31.

 

Coroados de brumas e de névoas antigas,

- como velhos guardiães no mais alto do mundo -,

afrontam este tempo de espera e de silêncio.

Enquanto o dia chega, tingido de vermelho,

observam aos seus pés os vales esquecidos

e as costas que borbulham de sargaços e espuma.

Uma ara sólis brilha e exércitos escuros

avançam lentamente, invocando os seus deuses,

com presságios que foram propícios para a guerra.

Mas no alto dos montes os guerreiros conhecem

o segredo da terra, lentamente sonhando

a sempre verde Emáin, para além do oceano.

Morrerão a lutar contra os seus inimigos

e as águias de prata, salpicadas de sangue,

traçarão dor e medo nos olhos das crianças.

Nos montes sempre verdes, onde crescem, sagrados,

carvalhos e azinheiras até ao fim deste mundo,

ecoam os seus berros clamando a liberdade.

Poderosos em ira, em graça generosos,

continuam despertos sob a luz do sol-pôr

ou no doce luar que veste os seus lamentos.

Estes montes observam o passo dos milénios

enquanto vão descendo a ira e a saudade

na terra em que nasceram os nossos avoengos.

 

 

33. O farol de Finisterra

 

Para além de ti só existe o infinito

e o luar que traça circos sobre o mar.

Como alto ciclope que escruta a distância

banhado na luz branca das estrelas,

surges cada noite livre e renascido.

Cometa terrestre, fugaz como um lírio

de pétalas brancas, uma doce aragem

sulca os teus cabelos feitos luz e brisa.

A lua acompanha os teus próprios ciclos,

onda e rocha e vento, e silêncio aquoso

de vivos lamentos, nome quase eterno

de belos destinos onde acaba a terra

e onde o mar começa a ser oceano.

Espalham-se em ti luzeiros difusos

que abarcam os climas de costas distantes,

noutras belas praias, talvez noutro mar.

As montanhas guardam o eco do teu nome

e dentro de si mesmas levam hinos

de belas palavras, em cada presença

alçam o seu signo de sonhos fugazes,

em cada segundo, em cada rumor

e em cada murmúrio que inflama o presente.

Para além de ti só existe o infinito

e o luar que traça circos sobre o mar.

 

 

35. Chuva verde (e mar ao longe)

 

 

A chuva faz-se verde

na relva trabalhada que hoje aguarda

a nova primavera,

o vento que percorre estas palavras

atravessa também campos insones

sob o frio que alastra.

Das altas chaminés, fumo cinzento,

que as lufadas de vento quase apagam,

surge como um murmúrio feito hinos

que atravessa as distâncias.

 

 

A chuva faz-se verde

nos bosques de carvalhos milenários.

dos seus ramos molhados

pingam gotas de luz e sons estranhos.

O vento, chuva verde em remoinhos,

exala novos cantos.

Uma clara harmonia de rumores

traça circos de signos navegados

em espirais azuis ou em tormentas

ou sobre os verdes campos.

 

 

O mar ficou ao longe

ancorado num século de chuva,

as ondas espumantes,

traçam um marulhar de fundas runas

no espelho da maré mais infinita

irisada e fecunda.

Um terror anuncia o novo abismo

que os guinchos das gaivotas quase sulcam

em bandos de hieróglifos celestes

escritos nas alturas.

 

 

O mar ficou ao longe

num estranho azedume de silêncios.

Cessou a chuva verde

e só ficam os cúmulos cinzentos

a vogar nos espaços indistintos

vestidos de lamentos.

Uma eterna quietude agora alcança

um labirinto plácido e sereno

de palavras, de ritmos e de ausências

nos círculos do tempo.

 

 

 

36. Mãe Terra

 

   Na argila do teu corpo, oh, terra,

   inúmeros luzeiros navegam,

   envolve-te uma espiral de luz

   feita seiva quase transparente,

   um meridiano de flores pálidas

   possui o teu seio feito brisa.    

   Traspasso o teu corpo reclinado

   e, sem querer dar-me ou esquecer-me,

   perdido de ti e de mim mesmo

   navego nos mares do destino.

 

   Sonho com os hinos que proclamas

   nas tuas belas formas nacaradas,

   tens vales de seixos harmoniosos,

   rios como coxas de alabastro,

   costas esquecidas e distantes,

   praias onde achar um novo mundo.

   Eu quero molhar-me na tua chuva

   e beber nas fontes das que manas,

   porque em ti hei ler o meu destino,

   nas linhas da mão com que me abraças.

 

   Bebi da nudez da tua figura

   um sorvo de dor e de amargura,

   num círculo de sombras difusas 

   cruzei as colinas mais fragrantes

   e bosques fugazes e impossíveis

   onde descansa o teu corpo d'água.

   Comi da tua terra sempre grávida

   o grato alimento da saudade:

   o coração tornou-se em crisálida,

   a minha alma azul em borboleta.

 

 

40. 

 

 

Estende-se aos meus pés, nesta aurora que nasce,

uma névoa brilhante que chega até ao horizonte

e cobre do seu manto as florestas sagradas,

as colinas distantes que acordam nesta hora

detidas sob o brilho da passagem de Grían

a navegar nos céus no seu carro dourado.

Uma linha distante de montanhas remotas

parece revelar-se no dia que começa

com sopés revestidos de luzes e de sombras.

 

Na distância aparece, entre nuvens cinzentas,

um resplendor fugaz que atravessa os espaços

e dá força e calor à terra que ainda dorme

vivificando os campos com a aragem do dia.

O inverno ficou detido em cada folha,

em cada folha murcha que formará a semente

das velhas carvalheiras, das fragas e dos campos

que a nova primavera vestirá de rumores,

numa explosão de cor e sussurros profundos.

 

Das longínquas aldeias um fumo quase triste

eleva-se na altura a formar remoinhos;

entre sons apagados, nos ramos que entretecem

uma teia de aranha com as mãos ainda mornas,

começa o novo dia e os gráceis falcões

sobrevoam os ares em círculos de lume.

Para além do horizonte sorri o nevoeiro

e traça sobre os cumes uma runa antiquíssima

que fala com palavras que já ninguém percebe.

 

 

 

41.

 

Na terra das montanhas e dos vales,

entre o fluir remoto das estrelas,

resiste um coração de luz e pedra,

com veias que são rios de saudade.

A terra das montanhas e dos vales

que amamos para além de toda espera,

um mundo de rumores cintilantes,

húmida flor que acorda em primavera.

O sol inunda os ritmos desta tarde

brilhando sobre os cumes das florestas,

as vagas lápis-lazúli regressam

a uma praia de fúlgidas areias

na terra das montanhas e dos vales.

 

 

 

42. Tormenta

 

 

   Com um fragor constante

as ondas espumosas deixam rios

de místicas presenças sobre a praia.

Ao estourar nas rochas e baixios

uiva o vento nas íngremes encostas

que se enfrentam às forças desatadas,

e uma maré hostil nas penedias

quebra-se nas arestas derrotadas.

As lufadas do vento trazem ecos

dos bramidos das ondas que palpitam.

Parece que no centro da tormenta

   a luz ficou detida.

   Uma sombra cinzenta

- ou sangue borbulhante que se perde -

paira em nuvens escuras sobre a terra

no furacão terrível que se estende.

 

   A chuva cai nas dunas

apagando as pegadas e os murmulhos

e deixando um rumor quase infinito.

Movidos pelas ondas, os entulhos

vão ficando ancorados sobre a areia

como restos de um naufrágio esquecido.

Na distância, o mar é todo branco

e um constante e monótono rugido

enche o ouvido dos sons da maresia.

A chuva, em remoinhos azulados,

faz caminhos no vento que se eleva

   a dançar nos recantos

   sob um tecto de trevas.

A noite vai chegando e um lamento

quase espreita nas asas da tormenta,

nesta costa que parece além do tempo.

 

A noite sem sol-pôr e sem estrelas

estendeu o seu manto sobre a terra.

Um lírio de saudade cai na alma

sonhando com estrofes de silêncio

nos cumes assombrados das montanhas.

Agora o mar é um círculo de medo

que fica sob as asas da tormenta.

   Tudo o demais descansa.

 

 

 

43. Tarde de inverno

 

O horizonte é cinzento sobre os campos molhados.

Para além dos pinheiros a chuva vai caindo

em círculos concêntricos na relva resplendente,

prata pálida e baça parece nela a chuva.

Confundidos na névoa, os matizes do verde

aparecem de novo nas florestas sagradas

e nos suaves sopés das antigas colinas

onde só as velhas fragas resistem as tormentas.

A tarde tem um ângulo de chuva quase insone

em horas que progridem com um lento concerto,

com um som repetido de ocultas sinfonias

para além deste tempo de dor e desespero.

Longe, ouvem-se os corvos a grasnar sobre os campos,

escuros e calados como as nuvens que cercam

em lúgubres desenhos os telhados da aldeia.

O mar é na distância como um crisol de cores,

fundido no horizonte cinzento e pesaroso,

enquanto o dia passa, fugindo em cada hora.

Os carvalhos antigos permanecem silentes

sob a água que desce das entranhas do céu.

A tarde que se esfia caminha lentamente

face a um sol-pôr escuro que deixa em nós um rasto

de profunda saudade, a lembrar-nos a morte.

 

 

 

44. O cometa

 

Nesta noite sem lua, o cometa cintila

com uma longa cauda de água e pó geado

percorrendo os espaços à direita das Plêiades

nesta abóbada imensa de negrume e de sonho.

Sobre o Monte da Nave observa-se brilhante

para além deste mar de saudade infinita,

como um grato sinal longo tempo aguardado

na perfeita quietude desta noite serena.

O vento uiva e chia nos pinheiros de Denle

e aos pés da Rapadoira os noctâmbulos corvos

olham ainda perplexos para os céus escuros

onde há dias que brilha remoto e poderoso.

Neste Março que esfia as suas últimas horas

há na ponta da Arnela um terrível confronto

de rochas que combatem com gumes afiados

contra ondas bravias de rancor e de fúria.

No mar do fim do mundo o vento traça linhas

nesse céu estrelado onde brilha, distante,

uma luz peregrina entre o mar e a terra,

um errante sem pátria a dançar no universo.

 

 

 

48.

 

   O azul celeste fica sossegado

   no horizonte perdido em remoinhos,

   à beira dos pinheiros tudo é vida,

   e há um eco triste na distância,

   com ondas pressurosas que não cessam

   o percurso iniciático dos dias,

   como longas cadências nacaradas

 

   O mar é um rosto azul que tem guardado

   o coração das eras nos caminhos

   num tempo quase feito pedra ardida,

   o mar percorre as águas da abundância

   e aves cintilantes que regressam

   a esta terra de luzes e harmonias,

   vagos coros de sombras compassadas

   a sentir no silêncio uma quimera.

 

   Os corvos hoje grasnam com lamentos

   de costas esquecidas, lentos passos

   que possuem silêncios compassados ,

   e na praia, de areia quase ardente,

   as gaivotas cinzentas traçam linhas

   que se estendem num arco de saudade

   para além destas rochas verdecidas

   que espreitam desde o cume dos outeiros.

 

   A tarde vai caindo, e há momentos

   que se abismam em fúlgidos espaços,

   tudo brilha, e na luz de tons dourados,

   o ar parece um rio transparente.

   O horizonte  abraçou ondas marinhas

   num gesto de nobreza e de amizade:

  O mar é som de luzes e feridas.

  A terra é o país dos nevoeiros.

 

 

 

 

49. Abril

 

Os cúmulos escuros pairam como os corvos

sobre o Monte da Serra, que fica silencioso

enquanto a manhã procura a tormenta.

Na Ponta Sardinheiro parece que se alonga

uma fresta de luz, entre nuvens cinzentas,

e há na Lagosteira um murmúrio de ondas

que rompem lentamente sob o céu toldado.

O mar é prata velha, com o pouso de anos,

e quase não se vêem, quebradas nas Lobeiras,

as vagas espumosas que apontam para o Pindo,

a imensa mole pétrea, lar sagrado dos celtas,

onde Dagda descansa no túmulo esquecido.

Agora a saraiva quebra o vale de Dúio

e golpeia com força as encostas dos montes,

a esquiva Rapadoira e o monte Seoane,

onde a chuva faz ondas de água e de saudade,

e onde os altos pinheiros ficam frios e escuros.

A tormenta caminha para o Monte da Nave

desde onde se observa o mar embravecido

que rompe no Berrão e faz rios de espuma.

Já não fica mais terra para além deste cabo,

somente o mar imenso que parece um caminho

para costas sagradas, onde achar o descanso,

- a sempre verde Emáin, a morada dos deuses -.

O vento uiva e chia e no céu de chumbo

a tormenta parece que incendia as culturas.

Uma nuvem de água cobre as casas de Vigo

e além de Finisterra, sobre o monte do Facho,

a tormenta redobra os furiosos embates.

A luz fugiu dos céus e só fica o gemido

dos ventos ululantes que atravessam os campos

e do rumor da chuva, enquanto cai a tarde.

 

 

 

51.

 

Uma ânsia infinita de borboletas brancas

aninha nos teus olhos que incendiam  luas.

No seu centro insondável bebi o amargo cálice

dum deus na sua agonia e berrei o teu nome.

Ali elevei um hino às horas compassadas

que me sangram nas mãos, eternamente ausentes.

Caminharás comigo pelas praias desertas

e veremos as ondas romper na branca areia,

e ao cair a noite, vestida de silêncio,

lembrarás uma estrela que cintila no alto.

Como dói o recendo do vento na tua pele

ou o cheiro das folhas ao cruzarmos o mato!

As estrelas cadentes saúdam-nos agora

mas a noite caminha num céu de desespero.

Em ilhas de saudade faremos esculturas

e ouvirei o rumor do mar nos belos búzios,

das conchas que encontremos farei em ti um desenho

para entrarmos mais livres na nova madrugada.

 

 

 

52.

 

Atravessar contigo cada sombra

que a noite cria, bela e imutável,

nos teus braços dourados diluir-me

por ruas que há séculos que sonham

     com círculos de sangue,

rodeada por trevas em que asir-te

à beleza das pedras trabalhadas

acompanha o rumor destas palavras

     e, fria como o mármore,

que a tua presença inunde em remoinhos

a força geométrica dos astros

para assim explodir em luminárias

que desenhem pináculos graníticos

sob cúpulas de hálitos alados.

 

Remontar com as asas dos arcanjos

o caminho que leva ao paraíso,

e a cidade, calada e indistinta,

somente saberá do nosso passo

     pelo eco de um sorriso

que brilha no fulgor das agonias.

Seremos como espíritos dançantes

que atravessam a própria imensidade

    ouvindo acaso os ritmos

da cósmica harmonia das esferas

enquanto caminhamos em silêncio

nas ruas de granito que ainda sabem

do rumor de um espectro que lateja

oculto nas marés do esquecimento.

 

Percorrer as ladeiras do teu nome

num círculo traçado na tua pele,

doze signos porei que a circundem

e uma estrela gravada entre estertores

     com fórmulas que espelhem

a língua da magia em que te inundes.

A minha ladainha será um hino

entre escuros  lamentos esquecidos.

     Uma lua transparente

brilha vermelha e triste lá no alto

bordeada por anéis de luz e bruma.

Imensamente triste, só  um  latido

parece pressagiar o que foi dado,

mas ainda fica a dor que nos perdura.

 

Doce Mórrígán, despe a longa túnica

que as deusas da morte sempre usaram,

e atravessa comigo o nevoeiro

para entrarmos na luz que nos circunda

     e sermos na alvorada

uma mesma razão e um mesmo alento.

Mas ainda fica a dor que nos perdura...    

 

 

 

53.

 

Como estrelas azuis é o meu desejo

ardendo em harmonias e em tristeza,

um existir sem vida, uma lança

que me atravessa a alma transtornada;

perdido estou sem ti e nada sou,

como uma pomba errante e sem destino

no meio da tormenta que a devora,

uma luz que se apaga, um sol cego.

 

Estou sozinho e triste e nada vejo

que não me lembre a ti e a tua beleza,

só uma ânsia mortal que tudo alcança

e que reduz a vida ao próprio nada;

um remoinho de dores em que estou

alenta ainda em mim, firme e cristalino,

como a mesma presença sonhadora

à que rindo o meu ser e à que me entrego.

 

Em  formas de alabastro ou diamante

retornas aos meus sonhos mais remotos,

e sulcas como um barco os oceanos

da memória que habito e em que me afundo;

imensamente triste, assim pereço

como a rosa cortada em primavera

que alegra os corações enquanto esfia

a seiva, a cor, a luz e a própria vida.

 

Como um sol no nadir sulco anelante

as trevas e os espaços mais ignotos

a arder nas próprias chamas dos arcanos

que reinam no horizonte do outro mundo,

como um anjo da morte assim pereço

na cósmica agonia em que vivera,

e só encontro em ti a minha guia

nos abismos em que a alma anda perdida.

 

 

54. Monte Pindo

 

A ascensão é uma senda  de seixos trabalhados

pela força da chuva e os rumores do vento,

graníticos pináculos resguardam as ladeiras

como  imensos castelos nos quais o tempo cessa;

aferrados à terra, esquálidos pinheiros

parecem rocha viva ou lanças de agonia

entre as cinzas do incêndio que assolou a floresta

e deixou o seu rasto em dias esquecidos.

 

Nos cumes descarnados as luzes demoradas

parecem modelar as formas da paisagem,

a própria mão de Goibhniu cinzelou cada fenda,

cada alto penedo, cada pedra oscilante,

martelou cada canto, abriu cada fissura,

e forjou essas moles num titânico esforço:

um mundo além do mundo que ainda permanece,

que está além da vida e além da certeza.

 

Aqui Grían percorre por caminhos trilhados

as encostas dos montes e com fúlgido alento

estende a sua sombra  até às ilhas Lobeiras

onde o filho de Lir no seu carro atravessa

o cobalto das águas. Entre antigos sendeiros

cresceu o verde espinho e a hera que dormia

acorda entre as carquejas ou faz em cada aresta

estranhas filigranas de sonhos revividos.

 

Os cânticos guerreiros e as vozes salmodiadas

parecem ainda ouvir-se, como uma suave aragem,

nas aras do deus Dagda, que oculta a sua lenda

sob um véu de mistério que benze o caminhante;

entre as pedras informes, de estranha estrutura,

os deuses esquecidos proclamam sem remorso

a sua fé nesta terra enquanto a nossa prece

ainda alça o voo para além da tristeza.

 

Uma música antiga de ritmos renovados

deixou no chão da Mina o seu plácido assento,

as pétreas formações marcam velhas fronteiras

para o mundo dos sonhos, que em nós mesmos começa;

desde o alto da Moa vêem-se os barcos pesqueiros

envoltos num rumor de peixe e maresia,

(deste mar até a Emáin uma sombra funesta

mistura vida e morte com presenças e olvidos).  

 

Onde outrora brilhou nos gumes das espadas

o sol do mês de Muin, hoje há uma imagem

de silêncio e incerteza que paira em cada senda,

a unir estes dois mundos num círculo brilhante;

e a voz de Brigântia, que surge da espessura,

renasce dentre as sombras num demorado escorço

tão suave e melodiosa que em si mesma parece

possuir a dor do mundo e  toda a sua beleza.

 

 

 

55.

 

Na Quintana dos mortos surge alada

uma floresta pétrea que levita

sob o brilho distante dos luzeiros,

em harmónicos raios cristalinos

parece de ouro velho que se eleva

em volutas de cósmica saudade

num apelo às estrelas cintilantes.

 

No coração barroco das estátuas

lateja uma emoção quase celeste

que aninha nos seus corpos trabalhados;

as luzes reafirmam-se nas sombras

e com ecos difusos traçam hinos

que parecem remotas ladainhas

a dançar sob o canto das esferas.

 

Recortada num fundo de negrume,

na torre Berenguela quase falam

os sons das badaladas, evocando

uma história de anos que se foram.

Como orações que invocam o infinito,

lá no alto a fé fez maravilhas

em forma de granito resplendente.

 

Da mão do mestre surgem os racimos,

as grinaldas de flores, os desenhos,

e toda a superfície dessa torre

parece desenhada por um anjo

que quisera expressar na sua glória

a presença do altíssimo que aguarda

a expressão desse salmo feito pedra.

 

Ressoam sobre as lousas de granito

os ecos das pisadas que se perdem,

e ainda há no ar o último sussurro

de antigas melodias que se encontram,

misturadas com vozes peregrinas,

na visão dessa mole em majestade

que parece detida aquém do tempo.

 

Na beleza ciclópea das alturas

o sonhador Andrade tinha feito

um canto de cinzéis quase divinos

guiados pela força de uma imagem.

Talvez tinha na mente a sua ria,

ou talvez as florestas da sua terra,

ou os bosques de Toba sob a lua. 

 

Na Quintana dos mortos, a esperança

é uma breve linha entre dois tempos,

a observar-se a si própria num espelho.

Como intrusos vivemos num milagre

que martelos ousados construíram,

e habitamos no sonho desse homem

que ainda está a viver na sua obra.

 

 

 

56.

 

O cinzento cobriu as lentas ondas

que na ria proclamam o infinito,

olhando-se no céu que as assombra

atravessam as horas sonolentas

e a beber do silêncio a sua tristeza

trazem ecos de fundos e baixios.

 

Como pálida prata avelhentada

que brilha na beleza desta tarde,

há vagas de alabastro na distância

a brincar com reflexos de agonia,

e, firmes no crisol em que declinam,

misturam na sua dor a eternidade.

 

As florestas ficaram entre a névoa

navegando num mar de esquecimento,

enquanto cai a bruma sobre a terra

um cheiro de lentura e de humidade

reconforta os sentidos, como a aragem

que percorre os cumes dos outeiros.

 

 

 

57.

 

Dá-me a mão, doce Áine, que eu te mostrarei

os recantos do mundo. Talvez já não conheças

as palavras precisas para dar-lhe aos poetas,

mas sim sabes da morte que ainda permanece.

O teu belo sorriso cintila nesta noite

como o brilho do Annwn, sereno entre os lamentos.

Conheces essas sombras que se encontram no escuro?

Essa luz cristalina que persegue os cometas?

 

Compostela parece sem a tua presença

mais vazia e mais triste, mas quando me acompanhas

pelas ruas desertas sob a luz das estrelas,

há como uma emoção que traspassa fronteiras

e então a cidade levita sob a bruma.

Sim, beija-me com força que hei beber nos teus lábios

um mundo de harmonias que vençam a tristeza

e que deixem na alma o brilho do teu rosto.

 

Os deuses acompanham o teu passo nas ruas,

mas só virás comigo às estrelas cadentes.

Talvez, formosa Áine, já ninguém te conheça

como eu te conheço. Talvez já ninguém saiba

a serena quietude que emana do teu nome.

As sombras da cidade apagaram os cantos

de todos os poetas, mas há na tua beleza

um sussurro que leva em si os paraísos.

 

Esta é a cidade que queria mostrar-te.

Já não temos mais nada. Somente esta cidade.

Quisera ensinar-te em cada verso nosso

o rumor da vitória, mas só fica o silêncio

que aninha entre os caminhos num rumor de lembranças.

Minha deusa do amor, quiçá voltes um dia

a ver a nossa pátria alçando-se do nada,

então sim dançaremos até que chegue a alva.

 

 

 

58. Mórrígán

 

Caminhas ao meu lado e falas doce

da beleza de Emáin em primavera.

E eu sorrio apenas,

se calhar porque a morte  me acompanha

desde o início dos tempos.

 

Chorou Bertran de Born o Jovem Rei

como eu choro por ti, que não te encontras

na medida das coisas ou no mundo.

 

Enquanto a noite ecoa nos teus passos,

deixando sobre as pedras

                                               pegadas invisíveis,

o granito parece que se eleva

num cheiro de macieiras  florescidas.

 

Assim a Rua Nova se espreguiça,

bela na calma antiga das lembranças,

sombra difusa, centro dum incêndio,

paraíso de cores e de ausências.

 

Se tivesse observado a minha sombra,

ali estarias tu,

                        olhando-me cansada

num rosto de silêncio e de agonia.

 

 

Atravessas comigo os soportais

e falamos das horas que se foram

como rosas já murchas.

Porque tu estiveste sempre comigo,

surgiste no meu sangue borbulhante

e nas brancas paredes

                                         do meu sinistro cárcere.

 

- Vem comigo à Quintana.

Se quiseres eu mesmo, como um homem,

como um lírio de luz

ou como um simples eco,

deixarei para ti

este rasto de sangue em que te invoco...

 

- Sempre gostei daquela torre. Sempre.

...................................................................

- Por que? Porque  a matéria vive nela

na harmonia da fé, profundamente.

.................................................................

- Cá estava o cemitério da cidade

e eu morri mil vezes nesta praça.

.................................................................

- Vês esse corvo? Sim, ali pousado

no valado. Os seus olhos cintilam

como brilham os teus quando me observas.

 

Lentamente, nos círculos  do obscuro,

o corvo beberá da minha mão               

o sangue que lhe entrego.                      

Beberá do meu sangue a minha vida,  

          lentamente, tão lento como eu bebo   

o rumor das batalhas nos teus beijos. 

 

A Quintana dos mortos. A Quintana.

 

 

 

 

 

63.

 

 

No silêncio da noite, como a rosa

no seu casulo ficas engastada,

fechada a luz em ti, e tão formosa

que acordo levemente e numa olhada

abarco a tua presença delicada.

Do céu desce um rumor em que se esfia

o teu rosto subtil, onde sorria

o verso que acabava de invocar,

como a ouvir uma nova melodia

nos teus olhos profundos como o mar.

 

Nos recantos do sonho, a alma airosa

retornava às essências, forma alada

que num fio de prata ainda goza

nas fronteiras do ser, como tocada

de inocente pureza e luz dourada.

Dotada de docíssima harmonia,

e guiada pela voz que em ti surgia,

atravessas os coros do luar,

a sentir gozo imenso e alegria

nos teus olhos profundos como o mar.

 

 

Esta noite caminha pressurosa

a preencher com paixão esta balada.

É nela a tua figura silenciosa

como uma pomba errante ou derrotada

que torna a proteger a sua ninhada.

Na serena quietude em que te via,

as horas viverão na sinfonia

de um eco cristalino por chegar,

e eu sinto ressurgir a poesia

nos teus olhos profundos como o mar.

 

 

A aurora forma laços de harmonia

no coração da noite em que eu vivia,

mas tu estarás tão bela ao acordar,

que eu sentirei nascer o novo dia

nos teus olhos profundos como o mar.

 

 

 

64. Pranto por Jenaro Marinhas

 

No coração da noite acendeu-se uma estrela

que brilha para nós no centro da memória,

nela está a presença das palavras perdidas

que partiram contigo à procura do eterno.

Viveste numa terra de terror e agonias

e viste como os homens destruíam o mundo,

morreram os teus sonhos num clarão de saudade,

nos anos em que a guerra roubou vidas preciosas.

 

Mas foste como a rocha que resiste as tormentas,

como os altos penedos que traspassam a história,

e não dobraste as costas quando as horas feridas

pesavam mais que o chumbo e o tempo era um inferno.

Soubeste partilhar a essência dos teus dias

e dotar a tua língua dum saber mais profundo,

talvez por isso saibas definir liberdade

com palavras precisas e a um tempo generosas.

 

Que os deuses te conduzam à sempre verde Emáin,

e enquanto os arautos proclamam as tuas gestas

ali terás descanso à sombra das macieiras,

nos lares do deus Dagda, irmão, o mais amado.

Não sentirás mais dor, triunfante sobre a morte,

porque ali os teus sonhos terão ao fim conforto,

com eles honrarás o que tantos perdestes,

por eles voltarás a crer no ser humano.

 

 

Quando a lua cintile nas planícies de Eráin,

quase rubra ao sol-pôr, e nas velhas florestas

os guerreiros de Ith façam gráceis fogueiras

em honra à tua chegada ao reino abençoado,

a formosa Brigântia te entrará na sua corte

e então serás livre de ira ou desconforto,

e depois de vestir-te com as sagradas vestes

poderás passear à beira do oceano.   

 

Aqui acaba a busca longo tempo iniciada,

na terra onde descansam os poetas guerreiros.

Sonhaste um paraíso de paz e de irmandade

mas o sonho findou, e agora és peregrino

nessas longínquas praias que os deuses te oferecem.

À mesa dos banquetes reserva-me um assento,

que quero visitar-te quando me chegue a hora

para chorarmos juntos sentados ao luar.

 

Ouvem-se entre os ramos as cítaras e as harpas

que tocam doces cantos à sombra dos sobreiros,

a inundar a tua alma de dor e de saudade.

Agora és o senhor do teu próprio destino,

e os velhos pesadelos pouco a pouco esmorecem

como a nuvem cinzenta entre os dedos do vento.

Dá-lhe um saúdo por mim ao sol-pôr e à aurora

e escreve os teus poemas com runas frente ao mar.

 

 

 

69.

 

 

Há um jardim de eterna imensidade

onde vago sem mim e sem sentido,

- inúmeras presenças declinantes

que se enlaçam com eras de lamentos

para chegar a ti e ser contigo -.

Nos teus beijos navego confiado,

num círculo de fogo sempre ardente

no que entregar a luz que me devora.

 

O teu nome cingiu-me em liberdade

num crepitar de anos compartido.

Atravessei o cosmos nuns instantes

e visitei mil mares sonolentos

para sonhar contigo e logo achar-te.

No templo do teu corpo nacarado

revivo as ladainhas do poente

vivendo a plenitude da demora.

 

Um meridiano de íntima irmandade

acompanha os confins deste latido,

mas sinto que os meus passos hesitantes

são qual frutos de fé, ágeis rebentos

que procuram a luz para encontrar-te.

Nascendo dos teus lábios sou amado,

vencido sou por ti e lentamente

recobro esse fulgor que me namora.

 

 

 

70.

 

As nuvens passam lentas neste outono silente

de tristeza infinita, a caminhar sozinho

através de uma névoa espessa como o mundo.

Perdido de mim mesmo, só a dor permanece

e vago pelos campos à procura dum verso

sabendo que é impossível encontrar as respostas.

 

Para além desta espera recobro a minha vida

e regresso a essa essência de estrelas vespertinas.

Geme em mim um silêncio de eras desoladas,

uma funda saudade se junta em cada pranto

e caio lentamente nesta tarde insondável

na que a luz aparece nas pedras do caminho.

 

Ecoam velhos cantos em cada madrugada

e em cada verso novo resplandece um sorriso.

Cheira à flor do aleli no quarto que me aguarda

e repasso no branco das pétalas que invoco

um poema só feito de eterna transparência

e que mostra um latido de beleza e de sonho.

 

 

72. Lembrança do Castro de Baronha

 

Em ocre e vermelho palpita este ocaso

brilhando difuso num arco de fogo

que traça no mar caminhos de vida.

Sentada ao meu lado contemplas as ondas

enquanto as gaivotas caminham no céu,

e observas a linha do sol no horizonte,

(as frechas de luz que atravessam nuvens

e pousam na água a cor do amanhã).

 

Parece que o mundo revive esta tarde

nos teus olhos livres que reflectem sonhos,

nos teus lábios doces  o inverno inflamou-se

com ecos difusos de eras remotas.

Se estás ao meu lado, esplêndida e bela,

- um jardim em flor de ardente alabastro -,

doura os teus cabelos um cálido alento

que mostra do além doçura infinita.

 

Quando cai a tarde, o teu riso argênteo

enevoa as formas das pedras do castro.

Que estranha quietude sentir que caminho

num tempo que foi para não tornar!

Assim passa tudo nesta velha terra,

mas já não me sinto sozinho na noite:

os teus alvos braços seguram de mim

e guiam os passos que dou nesta vida!

 

 

74.

 

Percorro lentamente as tuas ladeiras

--extensas  como campos de agonia—

e afirmo novos bosques resplendentes

onde sonhei baladas nunca ouvidas.

Descubro um mar azul de borboletas

e anseio no horizonte a tua beleza:

um novo coração para sonhar-te,

uma nova canção para render-me.

 

A dor trocou-se aroma de macieiras

ou vento sobre cumes de harmonia.

Que levidade as sílabas fluentes

voando como pombas sem feridas

numa mansão de nardos e violetas!

Agora recupero a fortaleza

e acendo a luz em mim para habitar-te,

ousado não de amar, mas de perder-me.

 

Como viver além das tuas fronteiras

se sinto a plenitude deste dia?

Bebi a água clara dos torrentes

sonhando nas auroras novas vidas

e amando como amam os poetas.

Nos teus lábios perdi toda incerteza:

como um vulcão latente ao confortar-te,

em mim e além de mim para vencer-me.

 

 

 

 

89.

 

Alço o meu verso para estar contigo

nestes momentos, e dotar de vida

a estas palavras, que serão por ti

     nobres e belas,

como um alento de marinha aragem

que te acompanhe ao cair a tarde.

Quando suspiras, e o meu nome invocas

     firme e serena,

sinto que surge, da tua voz excelsa

um som divino, inebriante eco

que me acarinha com  douradas asas,

     qual borboleta.

Beijo os teus lábios que           parecem  ilhas

- hinos sublimes em estrofes únicas -

para bebermos, num banquete alado,

     doce ambrosia.

Eu tomarei nas minhas mãos o estilo

e lavrarei, como um moderno Fídias,

mármore puro, virginal, pentélico,

     para esculpir-te.

 

 

 

 

91.

 

Branco o corpo infinito, um ritmo de cíclicas naves

que transfigura a luz, entre formas difusas que nascem,

olhos ardentes que evocam, no centro de um lânguido ocaso,

essas paragens singelas, que sulcam os sonhos mais puros.

Quão poderosa a palavra, se canta a beleza de um rosto,

ágeis hexâmetros alço, em mares de águas profundas

onde achar um rumor, ou talvez um sussurro distante,

para vestir-te de espumas, qual ondas de imensa saudade.

Quando me abraças na noite, em cálidas ondas de vida,

sinto um rubor ancestral, e a doçura de um beijo me envolve,

formas aladas palpitam, um canto se eleva nas sombras,

tórrido fogo me abrasa, mas ardo sem chama e sem lume.

Eu sobrevoo os teus lábios, e pinto de azul as lembranças,

como um errante cometa, que brilha a descer no teu peito,

traço na pele um caminho, os signos de após a Balança,

e atravesso contigo as longínquas fronteiras do mundo.

Brilham no céu as estrelas, e surge a pálida lua

entre os teus dedos de prata, sorrindo com tímido aceno,

lentas olhadas convocam presenças, passam as horas,

como carícias que calmam a dor, e as últimas notas

vão progredindo contigo, vestida de cálidos ecos,

porque retornas a mim, e trazes nos lábios a aurora.

 

 

 

O país dos nevoeiros (Antologia)