1. Cântico
Pátria de sonho e pedra, de água, vento e lume,
ancorada num tempo de gloriosas lembranças,
terra de belas veigas onde sussurra o melro,
onde o milhafre voa com asas poderosas,
onde o avô observa os rumores marinhos
e fala sem palavras com olhos sempre livres.
Ó, belo país nosso, verdejante e amável,
terra de leite e mel, onde a luz descansa,
lar de vales ocultos no profundo das rias,
de tesouros perdidos que aguardam um conjuro,
de pétreas citânias que lembram o passado
e que parecem cheias de ecos e memórias.
País das nove ondas, terra onde dorme o sol,
altar das mães amadas que possuem silêncios
e de pais que nos lembram com sincero recordo.
Belo templo de luz e sol-pores aquosos,
horizontes azuis, colinas infinitas
sob o ocre do sol que decora as montanhas.
País da branca espuma e faróis gigantescos,
como antigos ciclopes que escrutam o mar.
Coração de Brigântia, terra onde Ith nasceu.
Aqui Dagda se oculta antes que venha a noite,
aqui dormem os reis caros a Ísis e Osíris,
na barca que procura a última morada.
País dos dez mil castros e das dez mil montanhas
aguardando pacientes a hora em que de novo
os valentes guerreiros empunhem as espadas.
Solitária mansão de homens generosos
que erguem cada dia formosas esperanças.
Pátria de água e pedra, de sonho, vento e lume.
2. Terra
Terra de lentas sombras e silêncios
a navegar eternas madrugadas,
campos verdes, montanhas onduladas,
rias que em si possuem os rumores
ocultos das batalhas, veigas íntimas,
céus azuis e brancos, belas tardes
que desenham ocasos de saudade
em praias de águas limpas e sol-pores.
Terra de altos carvalhos, seiva ardente,
crepúsculos de cósmica lentura,
horizontes azuis onde murmura
o vento, onde a pétrea majestade
de castros e citânias se conforma.
País onde o silêncio é fruto amargo
à procura de um tempo solidário
em êxtases de dor e liberdade.
Nesta terra de sonhos, verde e calma,
onde habita o mar do fim do mundo,
há cores que se espelham no profundo
de uma ria de espumas coroada.
País de nevoeiros, lenta chuva
que cobre as montanhas, grandes bosques
de verdor infinito que percorre
o íntimo alecrim de flor dourada.
3. Cidade
Tenho os olhos cheios da luz desta cidade,
lentos olhos que sonham as torres florescidas,
os cantos verdecidos de sombra, os lamentos,
como ecos escuros que trespassam o dia
incendiando as olhadas de pedra e de sol-pores.
Tenho os olhos cheios desta luz aquosa
que enche os caminhos, as praças e os jardins;
coração quase livre, imensas lanças brancas
com setas de granito ou eternos mistérios
que abalam nas águas de uma fonte antiga.
Tenho os olhos cheios de cidade e de pedra,
abertos para ver desnorteados cometas
que pairam sobre as torres, imóveis e parados
os músicos que cessam o seu canto imortal
sob as prístinas asas do povo nunca eleito.
A cidade possui a palavra precisa
numa espiral de pedra, labirintos de luz,
ocasos sensitivos que abarcam o tempo,
altar de almas puras, de corações valentes
que procuram vitórias sob a luz das estrelas.
Anseio os lamentos, a dor desta cidade,
as chagas rumorosas do orvalho feito pedra
nos traços milenários das mais belas estátuas;
anseio esta cidade, o vento que parece
conhecer cada rua, cada nova palavra.
Tenho os olhos cheios da luz desta cidade,
do sol que se reflecte com dourados matizes;
tenho a memória ardida, o sentido aberto
a cantar cada várzea, cada formosa árvore
nesta noite singela do ser em que moramos.
4. (Aos poetas desta terra)
Cantai as doces cores deste país aquoso
em que abala o tempo em ondas de saudade,
cantai os verdes campos, as várzeas sensitivas,
os horizontes calmos de azul imensidade.
Cantai o eco místico dos vales florescidos
entre altos carvalhos de centenário alento,
olhai cada regato sob as pôlas das árvores,
sob a lua profunda onde sussurra o vento.
Admirai as montanhas de graníticas abas,
os cumes coroados de um brilho cintilante,
cada ria distante, cada eco nos bosques,
cada nova palavra num corpo de diamante.
Procurai esta terra nas mãos dos mais humildes,
nos campos sempre abertos, nos mares trabalhados,
conservai cada árvore, cada ponte ou caminho,
cada erva molhada nos lares sempre amados.
Assim não morrerá o eco deste verso,
porque a nossa memória é um antigo destino,
uma palavra amável, uma cantiga oculta,
ou um riso de prata sob um mar cristalino.
11.
No centro desta noite, sob a luz das estrelas,
a terra fica triste no seu sonho calado.
As luzes das aldeias são só pontos difusos
a lutar com as sombras que ocupam o horizonte
nesse rasto subtil de horas declinadas.
As árvores observam os rumores do vento
e parecem unir-se num abraço supremo
contra o frio da noite. No seu trono de prata
meia lua aparece entre nuvens obscuras
a beber do silêncio imagens olvidadas.
Há um canto sonoro que cobre o meu país
nestas noites inquietas que nascem desde o nada.
A lua guarda os castros, as antas soterradas
que protegem as cinzas dos nobres de há mil anos
frente a um mar hoje calmo ou num bosque encantado.
Nestas noite eu alço o meu verso dorido
por tudo o que desejo: o tempo, a luz, a vida,
e o amor a esta terra. Há um eco remoto
que conhece as palavras mais belas, as lembranças,
e o nome das estrelas a sonhar alvoradas.
14.
No horizonte adensam-se as sombras
neste sol-pôr de nuvens violáceas,
cai a noite e a luz discorre lânguida
por pedras milenárias e remotas.
A chuva faz caminhos, novas formas
no granito das torres trabalhadas:
No horizonte adensam-se as sombras
como um dossel cinzento sobre a alma.
Há um eco de pedras cinzeladas
pelos sulcos das águas que renovam
o mistério do eterno, nessa hora
em que no céu alastram as palavras
e no horizonte se adensam as sombras.
16. Pórtico
Há um eco de pedra sobre as praças,
a chuva faz caminhos
na pele das estátuas,
traça linhas de fé, em remoinhos,
e sob a luz difusa cria sombras
de perdidas palavras, mundos idos,
ou de sonhos que surgem do infinito.
Ressoa no silêncio cada passo,
cada voz peregrina, cada eco,
e em cada canto novo torna o tempo
à lenta majestade
dos arcos levemente levantados
que sulcam as abóbadas de pedra
como lírios de luz ou como estrelas.
Os rostos dos profetas bebem sombras
nos seus tronos dourados,
há cânticos que ecoam
na última arquivolta onde ousados
anciãos tocam harpas de som límpido
e flautas milenárias que proclamam
a glória apocalíptica das almas.
Os anjos portam a cruz, a coluna,
a coroa de espinhas e a lança,
o flagelo, a esponja e a cana,
os cravos e a cartela,
a sua tristeza é lenta e profunda
aos lados do Cordeiro, no seu trono
e na Corte celeste vitorioso.
O Pantocrator mostra as mãos chagadas
entre o anjo e o leão
e entre o boi e a águia.
O povo de Deus alça a sua oração
e caminha veloz após o anjo
que conduz à glória aos elegidos,
pois é chegado o dia do Juízo.
Na pilastra, numa aura dourada,
belo rosto barbado, olhos claros,
a sorrir docemente num estrado
de símbolos celestes,
o apóstolo recebe cada alma
na bela catedral onde o caminho
é um pórtico que aguarda o peregrino.
As mãos possuem o mármore infinito
em ciclos de saudade,
na coluna há um ritmo
de silêncios a olhar a imensidade.
Prostrado de joelhos está o mestre
com o seu coração de pedra e tempo
a cinzelar as portas do universo.
17.
Compostela tem uma voz rendida
em ondas de profunda imensidade
com olhares que vestem os lamentos
de palavras que aguardam os sol-pores.
Um horizonte pétreo que eterniza
o sentido do tempo feito arte,
rumorosas visões de terra e céu
ou névoas sobre os campos cada noite.
Um luzeiro traspassa o céu aberto,
e as formas trabalhadas, as estátuas,
as casas que parecem de ar e sombra
com linhas que transcendem os sentidos,
alçam cada momento novos cantos
à beleza das prístinas palavras
que percorrem as ruas, os recantos,
as praças revividas e os caminhos.
Há um mistério que flui em cada passo
e que eleva o nome mais profundo
no centro da memória e da esperança.
Compostela tem uma luz de séculos
e uma estrela na frente poderosa
que entrelaça nas mãos cada segundo
como um canto infinito de saudade
na pedra que parece além do tempo.
A luz de Compostela cria sombras
que transcendem a própria imensidade
de um rumor feito água e pedra viva.
As arquivoltas guardam os segredos
de um mão que dá forma a cada imagem...
Nas alturas um órgão ressoa
com ecos como estrelas, rostos claros,
e olhos cheios de luz e de mistério.
19. Hino dos guerreiros de Mill
Erguei novamente, guerreiros de Mill,
os arcos compridos e as longas espadas,
erguei-vos e sede valentes e fortes,
que brilhe um fulgor nas vossas miradas.
Erguei ao reflexo do triste luar
os cantos dotados de mágico acento,
deixai que os seus ecos traspassem a noite,
fazei que ressoem nas asas do vento.
Erguei novamente, nas harpas sonoras,
as grandes histórias do grande Agnomáin,
falai dos seus filhos Elloth e Laimflind,
dos fortes avôs, de Tai e Ogamáin.
Parti à vitória por longos caminhos,
com Donn e Erannan, com Colptha e com Ir,
vingai as afrentas, ganhai força e honra,
vencer ou morrer, alçar-se ou cair.
25. Ria
Um céu azul celeste cobre as águas da ria,
um cheiro a mar salgado, a sargaços e a areia
que se estende na praia num eterno perfume
de ondas que atravessam as linhas do horizonte.
Nas suaves montanhas que se espelham no mar
há bosques de pinheiros, carvalhos sensitivos
que possuem silêncios e presenças antigas,
como altos titãs, os montes poderosos
com os cumes lavrados de granito sereno
aguardam cada dia entre névoa e silêncio,
entre as duas ribeiras que se observam distantes.
A ria é como um campo de profundas estrelas
que reflectem nas águas os seus brilhos dourados
e tem no seu espírito a beleza que mora
no íntimo das ondas, no seu ritmo constante,
serena como um canto do mais fundo do mar.
26.
O mar parece calmo, mas em si mesmo esconde
violentas tormentas de espuma e de vento.
Agora leves ondas se aproximam à praia
sob altivos pinheiros e rochas ondulantes,
o sol cobre no céu o último trajecto
e Grían traz das rédeas os selvagens cavalos,
a ponto de chegar ao reino das penumbras.
Que rumor tão suave o das ondas que rompem
na lentura levíssima das sombras que se alongam,
uma explosão vermelha tingida de amarelos,
de ocres azulados e de nuvens de prata.
Que murmúrio infinito na eterna ondulação
das sombras quase eternas, esse vento que chega
a alçar os teus cabelos de brilhos cristalinos.
O mar possui a força dos deuses imortais,
a presença constante para além de nós mesmos,
traz em si mesmo hinos de costas esquecidas
de praias que cintilam sob a luz do luar.
Que estranho caminho para o reino das fadas
Emáin, a sempre verde, a terra mais amada,
na rota de ocidente, onde o sol descansa.
27. A Alexandre
Tens os olhos azuis sulcados de sol-pores
e vozes como estrelas que brilham sem palavras,
infinitas perguntas se juntam no teu peito
aguardando o instante de surgir neste mundo.
Tens os olhos azuis povoados de sol-pores
e há um canto de vida em cada um dos teus dias.
Porque tu és a esperança no negrume da noite,
boa nova sem fim ou um vento que alastra
no país dos nevoeiros, onde o sol descansa.
Saberás da incerteza de não termos história
olhando para as mãos calhadas dos avós,
para os rostos feridos pelas marcas do tempo.
E um dia, talvez, ao cruzar esta terra,
sonharás com a hora da nossa liberdade,
o dia em que de novo se ouçam as trombetas
e brilhem nas espadas as runas esquecidas,
os corvos em bandadas sulcarão o horizonte
e os filhos de Mill, novamente acordados,
erguerão as bandeiras e os cânticos de glória.
Saberás das batalhas do grande Oghamáin,
das conquistas de Brath e da bela Brigântia,
a gloriosa cidade amada de Breogão.
Algum dia terás nos teus olhos azuis
a imagem de uma ria a brilhar na manhã,
ou um vale esquecido onde mora o milhafre,
ou o sol sobre as torres da antiga Compostela,
a rutilante pérola que transcende os espaços.
Porque tu és a esperança no negrume da noite
e os teus olhos parecem sulcados de sol-pores.
30. Morte de Ith (fragmento)
O seu sangue dourado esbarrava nas tábuas,
sobre um manto de pele tiritava de frio,
empunhava a sua espada, cujo gume estilhado
tinha a ponta quebrada e perdido o seu brilho.
Ao seu lado Laghaid tristemente chorava,
Cis olhava espantado a profunda ferida,
era um mar espumante que coava do peito,
purpúreo e incessante como um rio de vida.
Foi ficando em silêncio toda a sua beleza,
apagou-se no alto toda a luz dos seus olhos,
a sua cor esmorece e uma névoa o envolve,
mesmo assim lhes parece como um rei no seu trono.
Já também não sorria... Foi naquele momento
no que o sol mergulhava sobre a terra das fadas
que elevou a cabeça como um nobre guerreiro:
Os seus olhos abertos procuravam o nada.
O seu último alento foi o nome da amada,
a mirada ao seu filho e a lembrança da terra...
Suspirou docemente e deixou de mover-se,
parecia dormido sobre um leito de estrelas.
Os valentes guerreiros acenderam os fachos
e cobriram o rosto com um pano dourado,
sobre o peito a sua espada, aos seus pés o escudo
e o elmo fendido, ainda em sangue banhado.
Colocaram a nave na procura do leste,
e em silêncio ficaram ao arbítrio das ondas,
foi então que Amarguéin entonou o seu hino
que falava de sonhos de poder e de glória.
-"Atravessa este mundo na procura de Emáin,
ousado e bravo príncipe, oh, filho de Breogão,
gozosa e nova vida viverás nos seus campos,
sonharás nos seu bosques com o apelo do mar".
Aqueles belos ecos de prístina beleza
de uma harpa de prata surgiram sobre as águas,
tal era a sua pureza que as ondas comoveram
se houvesse nelas peitos e uma alma humana.
Contra a raça mortal dos ousados Gaedháil
mesmo o filho de Lir aplacou a sua cólera,
vogando sobre as águas como uma simples várzea,
coroado de ouro e ébrio de vitória.
- "Tornemos a Brigântia", ordenou debilmente
o valente Laghaid aos exaustos soldados,
quando o último raio dum sol-pôr tenebroso
tingiu de luz as velas e os fundos olhos claros.
31.
Coroados de brumas e de névoas antigas,
- como velhos guardiães no mais alto do mundo -,
afrontam este tempo de espera e de silêncio.
Enquanto o dia chega, tingido de vermelho,
observam aos seus pés os vales esquecidos
e as costas que borbulham de sargaços e espuma.
Uma ara sólis brilha e exércitos escuros
avançam lentamente, invocando os seus deuses,
com presságios que foram propícios para a guerra.
Mas no alto dos montes os guerreiros conhecem
o segredo da terra, lentamente sonhando
a sempre verde Emáin, para além do oceano.
Morrerão a lutar contra os seus inimigos
e as águias de prata, salpicadas de sangue,
traçarão dor e medo nos olhos das crianças.
Nos montes sempre verdes, onde crescem, sagrados,
carvalhos e azinheiras até ao fim deste mundo,
ecoam os seus berros clamando a liberdade.
Poderosos em ira, em graça generosos,
continuam despertos sob a luz do sol-pôr
ou no doce luar que veste os seus lamentos.
Estes montes observam o passo dos milénios
enquanto vão descendo a ira e a saudade
na terra em que nasceram os nossos avoengos.
33. O farol de Finisterra
Para além de ti só existe o infinito
e o luar que traça circos sobre o mar.
Como alto ciclope que escruta a distância
banhado na luz branca das estrelas,
surges cada noite livre e renascido.
Cometa terrestre, fugaz como um lírio
de pétalas brancas, uma doce aragem
sulca os teus cabelos feitos luz e brisa.
A lua acompanha os teus próprios ciclos,
onda e rocha e vento, e silêncio aquoso
de vivos lamentos, nome quase eterno
de belos destinos onde acaba a terra
e onde o mar começa a ser oceano.
Espalham-se em ti luzeiros difusos
que abarcam os climas de costas distantes,
noutras belas praias, talvez noutro mar.
As montanhas guardam o eco do teu nome
e dentro de si mesmas levam hinos
de belas palavras, em cada presença
alçam o seu signo de sonhos fugazes,
em cada segundo, em cada rumor
e em cada murmúrio que inflama o presente.
Para além de ti só existe o infinito
e o luar que traça circos sobre o mar.
35. Chuva verde (e mar ao longe)
A chuva faz-se verde
na relva trabalhada que hoje aguarda
a nova primavera,
o vento que percorre estas palavras
atravessa também campos insones
sob o frio que alastra.
Das altas chaminés, fumo cinzento,
que as lufadas de vento quase apagam,
surge como um murmúrio feito hinos
que atravessa as distâncias.
A chuva faz-se verde
nos bosques de carvalhos milenários.
dos seus ramos molhados
pingam gotas de luz e sons estranhos.
O vento, chuva verde em remoinhos,
exala novos cantos.
Uma clara harmonia de rumores
traça circos de signos navegados
em espirais azuis ou em tormentas
ou sobre os verdes campos.
O mar ficou ao longe
ancorado num século de chuva,
as ondas espumantes,
traçam um marulhar de fundas runas
no espelho da maré mais infinita
irisada e fecunda.
Um terror anuncia o novo abismo
que os guinchos das gaivotas quase sulcam
em bandos de hieróglifos celestes
escritos nas alturas.
O mar ficou ao longe
num estranho azedume de silêncios.
Cessou a chuva verde
e só ficam os cúmulos cinzentos
a vogar nos espaços indistintos
vestidos de lamentos.
Uma eterna quietude agora alcança
um labirinto plácido e sereno
de palavras, de ritmos e de ausências
nos círculos do tempo.
36. Mãe Terra
Na argila do teu corpo, oh, terra,
inúmeros luzeiros navegam,
envolve-te uma espiral de luz
feita seiva quase transparente,
um meridiano de flores pálidas
possui o teu seio feito brisa.
Traspasso o teu corpo reclinado
e, sem querer dar-me ou esquecer-me,
perdido de ti e de mim mesmo
navego nos mares do destino.
Sonho com os hinos que proclamas
nas tuas belas formas nacaradas,
tens vales de seixos harmoniosos,
rios como coxas de alabastro,
costas esquecidas e distantes,
praias onde achar um novo mundo.
Eu quero molhar-me na tua chuva
e beber nas fontes das que manas,
porque em ti hei ler o meu destino,
nas linhas da mão com que me abraças.
Bebi da nudez da tua figura
um sorvo de dor e de amargura,
num círculo de sombras difusas
cruzei as colinas mais fragrantes
e bosques fugazes e impossíveis
onde descansa o teu corpo d'água.
Comi da tua terra sempre grávida
o grato alimento da saudade:
o coração tornou-se em crisálida,
a minha alma azul em borboleta.
40.
Estende-se aos meus pés, nesta aurora que nasce,
uma névoa brilhante que chega até ao horizonte
e cobre do seu manto as florestas sagradas,
as colinas distantes que acordam nesta hora
detidas sob o brilho da passagem de Grían
a navegar nos céus no seu carro dourado.
Uma linha distante de montanhas remotas
parece revelar-se no dia que começa
com sopés revestidos de luzes e de sombras.
Na distância aparece, entre nuvens cinzentas,
um resplendor fugaz que atravessa os espaços
e dá força e calor à terra que ainda dorme
vivificando os campos com a aragem do dia.
O inverno ficou detido em cada folha,
em cada folha murcha que formará a semente
das velhas carvalheiras, das fragas e dos campos
que a nova primavera vestirá de rumores,
numa explosão de cor e sussurros profundos.
Das longínquas aldeias um fumo quase triste
eleva-se na altura a formar remoinhos;
entre sons apagados, nos ramos que entretecem
uma teia de aranha com as mãos ainda mornas,
começa o novo dia e os gráceis falcões
sobrevoam os ares em círculos de lume.
Para além do horizonte sorri o nevoeiro
e traça sobre os cumes uma runa antiquíssima
que fala com palavras que já ninguém percebe.
41.
Na terra das montanhas e dos vales,
entre o fluir remoto das estrelas,
resiste um coração de luz e pedra,
com veias que são rios de saudade.
A terra das montanhas e dos vales
que amamos para além de toda espera,
um mundo de rumores cintilantes,
húmida flor que acorda em primavera.
O sol inunda os ritmos desta tarde
brilhando sobre os cumes das florestas,
as vagas lápis-lazúli regressam
a uma praia de fúlgidas areias
na terra das montanhas e dos vales.
42. Tormenta
Com um fragor constante
as ondas espumosas deixam rios
de místicas presenças sobre a praia.
Ao estourar nas rochas e baixios
uiva o vento nas íngremes encostas
que se enfrentam às forças desatadas,
e uma maré hostil nas penedias
quebra-se nas arestas derrotadas.
As lufadas do vento trazem ecos
dos bramidos das ondas que palpitam.
Parece que no centro da tormenta
a luz ficou detida.
Uma sombra cinzenta
- ou sangue borbulhante que se perde -
paira em nuvens escuras sobre a terra
no furacão terrível que se estende.
A chuva cai nas dunas
apagando as pegadas e os murmulhos
e deixando um rumor quase infinito.
Movidos pelas ondas, os entulhos
vão ficando ancorados sobre a areia
como restos de um naufrágio esquecido.
Na distância, o mar é todo branco
e um constante e monótono rugido
enche o ouvido dos sons da maresia.
A chuva, em remoinhos azulados,
faz caminhos no vento que se eleva
a dançar nos recantos
sob um tecto de trevas.
A noite vai chegando e um lamento
quase espreita nas asas da tormenta,
nesta costa que parece além do tempo.
A noite sem sol-pôr e sem estrelas
estendeu o seu manto sobre a terra.
Um lírio de saudade cai na alma
sonhando com estrofes de silêncio
nos cumes assombrados das montanhas.
Agora o mar é um círculo de medo
que fica sob as asas da tormenta.
Tudo o demais descansa.
43. Tarde de inverno
O horizonte é cinzento sobre os campos molhados.
Para além dos pinheiros a chuva vai caindo
em círculos concêntricos na relva resplendente,
prata pálida e baça parece nela a chuva.
Confundidos na névoa, os matizes do verde
aparecem de novo nas florestas sagradas
e nos suaves sopés das antigas colinas
onde só as velhas fragas resistem as tormentas.
A tarde tem um ângulo de chuva quase insone
em horas que progridem com um lento concerto,
com um som repetido de ocultas sinfonias
para além deste tempo de dor e desespero.
Longe, ouvem-se os corvos a grasnar sobre os campos,
escuros e calados como as nuvens que cercam
em lúgubres desenhos os telhados da aldeia.
O mar é na distância como um crisol de cores,
fundido no horizonte cinzento e pesaroso,
enquanto o dia passa, fugindo em cada hora.
Os carvalhos antigos permanecem silentes
sob a água que desce das entranhas do céu.
A tarde que se esfia caminha lentamente
face a um sol-pôr escuro que deixa em nós um rasto
de profunda saudade, a lembrar-nos a morte.
44. O cometa
Nesta noite sem lua, o cometa cintila
com uma longa cauda de água e pó geado
percorrendo os espaços à direita das Plêiades
nesta abóbada imensa de negrume e de sonho.
Sobre o Monte da Nave observa-se brilhante
para além deste mar de saudade infinita,
como um grato sinal longo tempo aguardado
na perfeita quietude desta noite serena.
O vento uiva e chia nos pinheiros de Denle
e aos pés da Rapadoira os noctâmbulos corvos
olham ainda perplexos para os céus escuros
onde há dias que brilha remoto e poderoso.
Neste Março que esfia as suas últimas horas
há na ponta da Arnela um terrível confronto
de rochas que combatem com gumes afiados
contra ondas bravias de rancor e de fúria.
No mar do fim do mundo o vento traça linhas
nesse céu estrelado onde brilha, distante,
uma luz peregrina entre o mar e a terra,
um errante sem pátria a dançar no universo.
48.
O azul celeste fica sossegado
no horizonte perdido em remoinhos,
à beira dos pinheiros tudo é vida,
e há um eco triste na distância,
com ondas pressurosas que não cessam
o percurso iniciático dos dias,
como longas cadências nacaradas
O mar é um rosto azul que tem guardado
o coração das eras nos caminhos
num tempo quase feito pedra ardida,
o mar percorre as águas da abundância
e aves cintilantes que regressam
a esta terra de luzes e harmonias,
vagos coros de sombras compassadas
a sentir no silêncio uma quimera.
Os corvos hoje grasnam com lamentos
de costas esquecidas, lentos passos
que possuem silêncios compassados ,
e na praia, de areia quase ardente,
as gaivotas cinzentas traçam linhas
que se estendem num arco de saudade
para além destas rochas verdecidas
que espreitam desde o cume dos outeiros.
A tarde vai caindo, e há momentos
que se abismam em fúlgidos espaços,
tudo brilha, e na luz de tons dourados,
o ar parece um rio transparente.
O horizonte abraçou ondas marinhas
num gesto de nobreza e de amizade:
O mar é som de luzes e feridas.
A terra é o país dos nevoeiros.
49. Abril
Os cúmulos escuros pairam como os corvos
sobre o Monte da Serra, que fica silencioso
enquanto a manhã procura a tormenta.
Na Ponta Sardinheiro parece que se alonga
uma fresta de luz, entre nuvens cinzentas,
e há na Lagosteira um murmúrio de ondas
que rompem lentamente sob o céu toldado.
O mar é prata velha, com o pouso de anos,
e quase não se vêem, quebradas nas Lobeiras,
as vagas espumosas que apontam para o Pindo,
a imensa mole pétrea, lar sagrado dos celtas,
onde Dagda descansa no túmulo esquecido.
Agora a saraiva quebra o vale de Dúio
e golpeia com força as encostas dos montes,
a esquiva Rapadoira e o monte Seoane,
onde a chuva faz ondas de água e de saudade,
e onde os altos pinheiros ficam frios e escuros.
A tormenta caminha para o Monte da Nave
desde onde se observa o mar embravecido
que rompe no Berrão e faz rios de espuma.
Já não fica mais terra para além deste cabo,
somente o mar imenso que parece um caminho
para costas sagradas, onde achar o descanso,
- a sempre verde Emáin, a morada dos deuses -.
O vento uiva e chia e no céu de chumbo
a tormenta parece que incendia as culturas.
Uma nuvem de água cobre as casas de Vigo
e além de Finisterra, sobre o monte do Facho,
a tormenta redobra os furiosos embates.
A luz fugiu dos céus e só fica o gemido
dos ventos ululantes que atravessam os campos
e do rumor da chuva, enquanto cai a tarde.
51.
Uma ânsia infinita de borboletas brancas
aninha nos teus olhos que incendiam luas.
No seu centro insondável bebi o amargo cálice
dum deus na sua agonia e berrei o teu nome.
Ali elevei um hino às horas compassadas
que me sangram nas mãos, eternamente ausentes.
Caminharás comigo pelas praias desertas
e veremos as ondas romper na branca areia,
e ao cair a noite, vestida de silêncio,
lembrarás uma estrela que cintila no alto.
Como dói o recendo do vento na tua pele
ou o cheiro das folhas ao cruzarmos o mato!
As estrelas cadentes saúdam-nos agora
mas a noite caminha num céu de desespero.
Em ilhas de saudade faremos esculturas
e ouvirei o rumor do mar nos belos búzios,
das conchas que encontremos farei em ti um desenho
para entrarmos mais livres na nova madrugada.
52.
Atravessar contigo cada sombra
que a noite cria, bela e imutável,
nos teus braços dourados diluir-me
por ruas que há séculos que sonham
com círculos de sangue,
rodeada por trevas em que asir-te
à beleza das pedras trabalhadas
acompanha o rumor destas palavras
e, fria como o mármore,
que a tua presença inunde em remoinhos
a força geométrica dos astros
para assim explodir em luminárias
que desenhem pináculos graníticos
sob cúpulas de hálitos alados.
Remontar com as asas dos arcanjos
o caminho que leva ao paraíso,
e a cidade, calada e indistinta,
somente saberá do nosso passo
pelo eco de um sorriso
que brilha no fulgor das agonias.
Seremos como espíritos dançantes
que atravessam a própria imensidade
ouvindo acaso os ritmos
da cósmica harmonia das esferas
enquanto caminhamos em silêncio
nas ruas de granito que ainda sabem
do rumor de um espectro que lateja
oculto nas marés do esquecimento.
Percorrer as ladeiras do teu nome
num círculo traçado na tua pele,
doze signos porei que a circundem
e uma estrela gravada entre estertores
com fórmulas que espelhem
a língua da magia em que te inundes.
A minha ladainha será um hino
entre escuros lamentos esquecidos.
Uma lua transparente
brilha vermelha e triste lá no alto
bordeada por anéis de luz e bruma.
Imensamente triste, só um latido
parece pressagiar o que foi dado,
mas ainda fica a dor que nos perdura.
Doce Mórrígán, despe a longa túnica
que as deusas da morte sempre usaram,
e atravessa comigo o nevoeiro
para entrarmos na luz que nos circunda
e sermos na alvorada
uma mesma razão e um mesmo alento.
Mas ainda fica a dor que nos perdura...
53.
Como estrelas azuis é o meu desejo
ardendo em harmonias e em tristeza,
um existir sem vida, uma lança
que me atravessa a alma transtornada;
perdido estou sem ti e nada sou,
como uma pomba errante e sem destino
no meio da tormenta que a devora,
uma luz que se apaga, um sol cego.
Estou sozinho e triste e nada vejo
que não me lembre a ti e a tua beleza,
só uma ânsia mortal que tudo alcança
e que reduz a vida ao próprio nada;
um remoinho de dores em que estou
alenta ainda em mim, firme e cristalino,
como a mesma presença sonhadora
à que rindo o meu ser e à que me entrego.
Em formas de alabastro ou diamante
retornas aos meus sonhos mais remotos,
e sulcas como um barco os oceanos
da memória que habito e em que me afundo;
imensamente triste, assim pereço
como a rosa cortada em primavera
que alegra os corações enquanto esfia
a seiva, a cor, a luz e a própria vida.
Como um sol no nadir sulco anelante
as trevas e os espaços mais ignotos
a arder nas próprias chamas dos arcanos
que reinam no horizonte do outro mundo,
como um anjo da morte assim pereço
na cósmica agonia em que vivera,
e só encontro em ti a minha guia
nos abismos em que a alma anda perdida.
54. Monte Pindo
A ascensão é uma senda de seixos trabalhados
pela força da chuva e os rumores do vento,
graníticos pináculos resguardam as ladeiras
como imensos castelos nos quais o tempo cessa;
aferrados à terra, esquálidos pinheiros
parecem rocha viva ou lanças de agonia
entre as cinzas do incêndio que assolou a floresta
e deixou o seu rasto em dias esquecidos.
Nos cumes descarnados as luzes demoradas
parecem modelar as formas da paisagem,
a própria mão de Goibhniu cinzelou cada fenda,
cada alto penedo, cada pedra oscilante,
martelou cada canto, abriu cada fissura,
e forjou essas moles num titânico esforço:
um mundo além do mundo que ainda permanece,
que está além da vida e além da certeza.
Aqui Grían percorre por caminhos trilhados
as encostas dos montes e com fúlgido alento
estende a sua sombra até às ilhas Lobeiras
onde o filho de Lir no seu carro atravessa
o cobalto das águas. Entre antigos sendeiros
cresceu o verde espinho e a hera que dormia
acorda entre as carquejas ou faz em cada aresta
estranhas filigranas de sonhos revividos.
Os cânticos guerreiros e as vozes salmodiadas
parecem ainda ouvir-se, como uma suave aragem,
nas aras do deus Dagda, que oculta a sua lenda
sob um véu de mistério que benze o caminhante;
entre as pedras informes, de estranha estrutura,
os deuses esquecidos proclamam sem remorso
a sua fé nesta terra enquanto a nossa prece
ainda alça o voo para além da tristeza.
Uma música antiga de ritmos renovados
deixou no chão da Mina o seu plácido assento,
as pétreas formações marcam velhas fronteiras
para o mundo dos sonhos, que em nós mesmos começa;
desde o alto da Moa vêem-se os barcos pesqueiros
envoltos num rumor de peixe e maresia,
(deste mar até a Emáin uma sombra funesta
mistura vida e morte com presenças e olvidos).
Onde outrora brilhou nos gumes das espadas
o sol do mês de Muin, hoje há uma imagem
de silêncio e incerteza que paira em cada senda,
a unir estes dois mundos num círculo brilhante;
e a voz de Brigântia, que surge da espessura,
renasce dentre as sombras num demorado escorço
tão suave e melodiosa que em si mesma parece
possuir a dor do mundo e toda a sua beleza.
55.
Na Quintana dos mortos surge alada
uma floresta pétrea que levita
sob o brilho distante dos luzeiros,
em harmónicos raios cristalinos
parece de ouro velho que se eleva
em volutas de cósmica saudade
num apelo às estrelas cintilantes.
No coração barroco das estátuas
lateja uma emoção quase celeste
que aninha nos seus corpos trabalhados;
as luzes reafirmam-se nas sombras
e com ecos difusos traçam hinos
que parecem remotas ladainhas
a dançar sob o canto das esferas.
Recortada num fundo de negrume,
na torre Berenguela quase falam
os sons das badaladas, evocando
uma história de anos que se foram.
Como orações que invocam o infinito,
lá no alto a fé fez maravilhas
em forma de granito resplendente.
Da mão do mestre surgem os racimos,
as grinaldas de flores, os desenhos,
e toda a superfície dessa torre
parece desenhada por um anjo
que quisera expressar na sua glória
a presença do altíssimo que aguarda
a expressão desse salmo feito pedra.
Ressoam sobre as lousas de granito
os ecos das pisadas que se perdem,
e ainda há no ar o último sussurro
de antigas melodias que se encontram,
misturadas com vozes peregrinas,
na visão dessa mole em majestade
que parece detida aquém do tempo.
Na beleza ciclópea das alturas
o sonhador Andrade tinha feito
um canto de cinzéis quase divinos
guiados pela força de uma imagem.
Talvez tinha na mente a sua ria,
ou talvez as florestas da sua terra,
ou os bosques de Toba sob a lua.
Na Quintana dos mortos, a esperança
é uma breve linha entre dois tempos,
a observar-se a si própria num espelho.
Como intrusos vivemos num milagre
que martelos ousados construíram,
e habitamos no sonho desse homem
que ainda está a viver na sua obra.
56.
O cinzento cobriu as lentas ondas
que na ria proclamam o infinito,
olhando-se no céu que as assombra
atravessam as horas sonolentas
e a beber do silêncio a sua tristeza
trazem ecos de fundos e baixios.
Como pálida prata avelhentada
que brilha na beleza desta tarde,
há vagas de alabastro na distância
a brincar com reflexos de agonia,
e, firmes no crisol em que declinam,
misturam na sua dor a eternidade.
As florestas ficaram entre a névoa
navegando num mar de esquecimento,
enquanto cai a bruma sobre a terra
um cheiro de lentura e de humidade
reconforta os sentidos, como a aragem
que percorre os cumes dos outeiros.
57.
Dá-me a mão, doce Áine, que eu te mostrarei
os recantos do mundo. Talvez já não conheças
as palavras precisas para dar-lhe aos poetas,
mas sim sabes da morte que ainda permanece.
O teu belo sorriso cintila nesta noite
como o brilho do Annwn, sereno entre os lamentos.
Conheces essas sombras que se encontram no escuro?
Essa luz cristalina que persegue os cometas?
Compostela parece sem a tua presença
mais vazia e mais triste, mas quando me acompanhas
pelas ruas desertas sob a luz das estrelas,
há como uma emoção que traspassa fronteiras
e então a cidade levita sob a bruma.
Sim, beija-me com força que hei beber nos teus lábios
um mundo de harmonias que vençam a tristeza
e que deixem na alma o brilho do teu rosto.
Os deuses acompanham o teu passo nas ruas,
mas só virás comigo às estrelas cadentes.
Talvez, formosa Áine, já ninguém te conheça
como eu te conheço. Talvez já ninguém saiba
a serena quietude que emana do teu nome.
As sombras da cidade apagaram os cantos
de todos os poetas, mas há na tua beleza
um sussurro que leva em si os paraísos.
Esta é a cidade que queria mostrar-te.
Já não temos mais nada. Somente esta cidade.
Quisera ensinar-te em cada verso nosso
o rumor da vitória, mas só fica o silêncio
que aninha entre os caminhos num rumor de lembranças.
Minha deusa do amor, quiçá voltes um dia
a ver a nossa pátria alçando-se do nada,
então sim dançaremos até que chegue a alva.
58. Mórrígán
Caminhas ao meu lado e falas doce
da beleza de Emáin em primavera.
E eu sorrio apenas,
se calhar porque a morte me acompanha
desde o início dos tempos.
Chorou Bertran de Born o Jovem Rei
como eu choro por ti, que não te encontras
na medida das coisas ou no mundo.
Enquanto a noite ecoa nos teus passos,
deixando sobre as pedras
pegadas invisíveis,
o granito parece que se eleva
num cheiro de macieiras florescidas.
Assim a Rua Nova se espreguiça,
bela na calma antiga das lembranças,
sombra difusa, centro dum incêndio,
paraíso de cores e de ausências.
Se tivesse observado a minha sombra,
ali estarias tu,
olhando-me cansada
num rosto de silêncio e de agonia.
Atravessas comigo os soportais
e falamos das horas que se foram
como rosas já murchas.
Porque tu estiveste sempre comigo,
surgiste no meu sangue borbulhante
e nas brancas paredes
do meu sinistro cárcere.
- Vem comigo à Quintana.
Se quiseres eu mesmo, como um homem,
como um lírio de luz
ou como um simples eco,
deixarei para ti
este rasto de sangue em que te invoco...
- Sempre gostei daquela torre. Sempre.
...................................................................
- Por que? Porque a matéria vive nela
na harmonia da fé, profundamente.
.................................................................
- Cá estava o cemitério da cidade
e eu morri mil vezes nesta praça.
.................................................................
- Vês esse corvo? Sim, ali pousado
no valado. Os seus olhos cintilam
como brilham os teus quando me observas.
Lentamente, nos círculos do obscuro,
o corvo beberá da minha mão
o sangue que lhe entrego.
Beberá do meu sangue a minha vida,
lentamente, tão lento como eu bebo
o rumor das batalhas nos teus beijos.
A Quintana dos mortos. A Quintana.
63.
No silêncio da noite, como a rosa
no seu casulo ficas engastada,
fechada a luz em ti, e tão formosa
que acordo levemente e numa olhada
abarco a tua presença delicada.
Do céu desce um rumor em que se esfia
o teu rosto subtil, onde sorria
o verso que acabava de invocar,
como a ouvir uma nova melodia
nos teus olhos profundos como o mar.
Nos recantos do sonho, a alma airosa
retornava às essências, forma alada
que num fio de prata ainda goza
nas fronteiras do ser, como tocada
de inocente pureza e luz dourada.
Dotada de docíssima harmonia,
e guiada pela voz que em ti surgia,
atravessas os coros do luar,
a sentir gozo imenso e alegria
nos teus olhos profundos como o mar.
Esta noite caminha pressurosa
a preencher com paixão esta balada.
É nela a tua figura silenciosa
como uma pomba errante ou derrotada
que torna a proteger a sua ninhada.
Na serena quietude em que te via,
as horas viverão na sinfonia
de um eco cristalino por chegar,
e eu sinto ressurgir a poesia
nos teus olhos profundos como o mar.
A aurora forma laços de harmonia
no coração da noite em que eu vivia,
mas tu estarás tão bela ao acordar,
que eu sentirei nascer o novo dia
nos teus olhos profundos como o mar.
64. Pranto por Jenaro Marinhas
No coração da noite acendeu-se uma estrela
que brilha para nós no centro da memória,
nela está a presença das palavras perdidas
que partiram contigo à procura do eterno.
Viveste numa terra de terror e agonias
e viste como os homens destruíam o mundo,
morreram os teus sonhos num clarão de saudade,
nos anos em que a guerra roubou vidas preciosas.
Mas foste como a rocha que resiste as tormentas,
como os altos penedos que traspassam a história,
e não dobraste as costas quando as horas feridas
pesavam mais que o chumbo e o tempo era um inferno.
Soubeste partilhar a essência dos teus dias
e dotar a tua língua dum saber mais profundo,
talvez por isso saibas definir liberdade
com palavras precisas e a um tempo generosas.
Que os deuses te conduzam à sempre verde Emáin,
e enquanto os arautos proclamam as tuas gestas
ali terás descanso à sombra das macieiras,
nos lares do deus Dagda, irmão, o mais amado.
Não sentirás mais dor, triunfante sobre a morte,
porque ali os teus sonhos terão ao fim conforto,
com eles honrarás o que tantos perdestes,
por eles voltarás a crer no ser humano.
Quando a lua cintile nas planícies de Eráin,
quase rubra ao sol-pôr, e nas velhas florestas
os guerreiros de Ith façam gráceis fogueiras
em honra à tua chegada ao reino abençoado,
a formosa Brigântia te entrará na sua corte
e então serás livre de ira ou desconforto,
e depois de vestir-te com as sagradas vestes
poderás passear à beira do oceano.
Aqui acaba a busca longo tempo iniciada,
na terra onde descansam os poetas guerreiros.
Sonhaste um paraíso de paz e de irmandade
mas o sonho findou, e agora és peregrino
nessas longínquas praias que os deuses te oferecem.
À mesa dos banquetes reserva-me um assento,
que quero visitar-te quando me chegue a hora
para chorarmos juntos sentados ao luar.
Ouvem-se entre os ramos as cítaras e as harpas
que tocam doces cantos à sombra dos sobreiros,
a inundar a tua alma de dor e de saudade.
Agora és o senhor do teu próprio destino,
e os velhos pesadelos pouco a pouco esmorecem
como a nuvem cinzenta entre os dedos do vento.
Dá-lhe um saúdo por mim ao sol-pôr e à aurora
e escreve os teus poemas com runas frente ao mar.
69.
Há um jardim de eterna imensidade
onde vago sem mim e sem sentido,
- inúmeras presenças declinantes
que se enlaçam com eras de lamentos
para chegar a ti e ser contigo -.
Nos teus beijos navego confiado,
num círculo de fogo sempre ardente
no que entregar a luz que me devora.
O teu nome cingiu-me em liberdade
num crepitar de anos compartido.
Atravessei o cosmos nuns instantes
e visitei mil mares sonolentos
para sonhar contigo e logo achar-te.
No templo do teu corpo nacarado
revivo as ladainhas do poente
vivendo a plenitude da demora.
Um meridiano de íntima irmandade
acompanha os confins deste latido,
mas sinto que os meus passos hesitantes
são qual frutos de fé, ágeis rebentos
que procuram a luz para encontrar-te.
Nascendo dos teus lábios sou amado,
vencido sou por ti e lentamente
recobro esse fulgor que me namora.
70.
As nuvens passam lentas neste outono silente
de tristeza infinita, a caminhar sozinho
através de uma névoa espessa como o mundo.
Perdido de mim mesmo, só a dor permanece
e vago pelos campos à procura dum verso
sabendo que é impossível encontrar as respostas.
Para além desta espera recobro a minha vida
e regresso a essa essência de estrelas vespertinas.
Geme em mim um silêncio de eras desoladas,
uma funda saudade se junta em cada pranto
e caio lentamente nesta tarde insondável
na que a luz aparece nas pedras do caminho.
Ecoam velhos cantos em cada madrugada
e em cada verso novo resplandece um sorriso.
Cheira à flor do aleli no quarto que me aguarda
e repasso no branco das pétalas que invoco
um poema só feito de eterna transparência
e que mostra um latido de beleza e de sonho.
72. Lembrança do Castro de Baronha
Em ocre e vermelho palpita este ocaso
brilhando difuso num arco de fogo
que traça no mar caminhos de vida.
Sentada ao meu lado contemplas as ondas
enquanto as gaivotas caminham no céu,
e observas a linha do sol no horizonte,
(as frechas de luz que atravessam nuvens
e pousam na água a cor do amanhã).
Parece que o mundo revive esta tarde
nos teus olhos livres que reflectem sonhos,
nos teus lábios doces o inverno inflamou-se
com ecos difusos de eras remotas.
Se estás ao meu lado, esplêndida e bela,
- um jardim em flor de ardente alabastro -,
doura os teus cabelos um cálido alento
que mostra do além doçura infinita.
Quando cai a tarde, o teu riso argênteo
enevoa as formas das pedras do castro.
Que estranha quietude sentir que caminho
num tempo que foi para não tornar!
Assim passa tudo nesta velha terra,
mas já não me sinto sozinho na noite:
os teus alvos braços seguram de mim
e guiam os passos que dou nesta vida!
74.
Percorro lentamente as tuas ladeiras
--extensas como campos de agonia—
e afirmo novos bosques resplendentes
onde sonhei baladas nunca ouvidas.
Descubro um mar azul de borboletas
e anseio no horizonte a tua beleza:
um novo coração para sonhar-te,
uma nova canção para render-me.
A dor trocou-se aroma de macieiras
ou vento sobre cumes de harmonia.
Que levidade as sílabas fluentes
voando como pombas sem feridas
numa mansão de nardos e violetas!
Agora recupero a fortaleza
e acendo a luz em mim para habitar-te,
ousado não de amar, mas de perder-me.
Como viver além das tuas fronteiras
se sinto a plenitude deste dia?
Bebi a água clara dos torrentes
sonhando nas auroras novas vidas
e amando como amam os poetas.
Nos teus lábios perdi toda incerteza:
como um vulcão latente ao confortar-te,
em mim e além de mim para vencer-me.
89.
Alço o meu verso para estar contigo
nestes momentos, e dotar de vida
a estas palavras, que serão por ti
nobres e belas,
como um alento de marinha aragem
que te acompanhe ao cair a tarde.
Quando suspiras, e o meu nome invocas
firme e serena,
sinto que surge, da tua voz excelsa
um som divino, inebriante eco
que me acarinha com douradas asas,
qual borboleta.
Beijo os teus lábios que parecem ilhas
- hinos sublimes em estrofes únicas -
para bebermos, num banquete alado,
doce ambrosia.
Eu tomarei nas minhas mãos o estilo
e lavrarei, como um moderno Fídias,
mármore puro, virginal, pentélico,
para esculpir-te.
91.
Branco o corpo infinito, um ritmo de cíclicas naves
que transfigura a luz, entre formas difusas que nascem,
olhos ardentes que evocam, no centro de um lânguido ocaso,
essas paragens singelas, que sulcam os sonhos mais puros.
Quão poderosa a palavra, se canta a beleza de um rosto,
ágeis hexâmetros alço, em mares de águas profundas
onde achar um rumor, ou talvez um sussurro distante,
para vestir-te de espumas, qual ondas de imensa saudade.
Quando me abraças na noite, em cálidas ondas de vida,
sinto um rubor ancestral, e a doçura de um beijo me envolve,
formas aladas palpitam, um canto se eleva nas sombras,
tórrido fogo me abrasa, mas ardo sem chama e sem lume.
Eu sobrevoo os teus lábios, e pinto de azul as lembranças,
como um errante cometa, que brilha a descer no teu peito,
traço na pele um caminho, os signos de após a Balança,
e atravesso contigo as longínquas fronteiras do mundo.
Brilham no céu as estrelas, e surge a pálida lua
entre os teus dedos de prata, sorrindo com tímido aceno,
lentas olhadas convocam presenças, passam as horas,
como carícias que calmam a dor, e as últimas notas
vão progredindo contigo, vestida de cálidos ecos,
porque retornas a mim, e trazes nos lábios a aurora.