A máquina de entropía inversa

    Quando me dirigia à Faculdade de Física da Universidade, a caminhar lentamente pela rua quase solitária, entre altos plátanos de frondosa enramada, vi que se detinha ao meu lado o carro do meu companheiro Edward Morell.

 

– Olá, Mike – cumprimentou-me ele alegremente. – Sempre a caminhar, não é?

 

– Já sabes que me encanta passear – respondi. – Apenas demoro cinco minutos em chegar ao Laboratório do meu andar. E hoje está um dia esplêndido.

 

   Verdadeiramente, estava um formoso dia, com o sol brilhando num céu quase sem nuvens.

 

– Ainda falta meia hora para entrarmos – indicou. – Queres que tomemos um café? Quero contar-te uma coisa extraordinária que me aconteceu.

 

   Pareceu-me estranho que Edward, um homem de mediana idade, com uma vida totalmente insípida tivesse algo extraordinário que contar (apesar de o considerar um ótimo físico). Aceitei.

 

   Quando entramos naquele local, pedimos um pequeno-almoço completo: Café com leite, umas torradas e um sumo de laranja natural.

 

– A ver – disse-lhe a sorrir –, que era isso tão extraordinário que me tinhas para contar?

 

   Ele olhou para mim, com uma expressão estranha no rosto. Nunca vira o seu rosto tão expressivo e alegre como naquele momento.

 

– No Centro de Física Experimental estão fazendo um experimento muito interessante. Assinaram um protocolo de colaboração com a empresa mais importante do país no desenvolvimento de videojogos e de realidade virtual e já tem o protótipo rematado.

 

– E isso é o extraordinário? – perguntei.

 

– Calma, pá – respondeu. – Deixa-me que te conte tudo... O videojogo que estão realizando ia chamar-se Viagem no tempo, mas agora tudo mudou. John Ivánov, esse génio da Equipa de Física Experimental. Conhece-lo? Sim?  Pois ele estava a trabalhar numa nova visão das equações da relatividade que cruzou com as experiências de termodinâmica e de física quântica. Descobriu que a viagem no tempo podia ser algo real, e que em verdade se podia viajar atrás no tempo, mas não como o imaginaram literatos como Wells, senão com uma particularidade especial. Parece ser que descobriu que o tempo passado é um espaço tridimensional num mundo bidimensional. Isto quer dizer que é como um filme projetado num ecrã de grandes dimensões, que não se pode modificar, mas ao entrar nele a realidade tem três dimensões...

 

– Não percebo patavina – declarei.

 

– Aguarda, meu. Já sei que parece difícil de entender... Como os do Laboratório de Física Experimental tinham tantas verbas, devido ao patrocínio da empresa de videojogos, decidiram construir uma enorme máquina. Gastaram dois mil milhões de dólares, mas finalmente conseguiram o objetivo. Têm a máquina. E já a experimentei...

 

– Viajaste atrás no tempo?

 

   Formulei a pergunta como se estivesse diante de louco varrido.

 

– Pois sim – afirmou. – Já te disse que não é uma viagem real no tempo, senão que essa viagem é a um tempo estático, como se for filmado, um tempo onde não se podem mudar os acontecimentos. Suponho que conheces o típico paradoxo temporal, não é verdade? Uma pessoa viaja atrás no tempo e acaba matando o seu avô, o que implica o paradoxo de que então o avô não poderia ter filhos e ele não poderia ter nascido, e então tampouco poderia viajar atrás no tempo para matar o seu avô.

 

– Já conheço tudo isso. É o que sempre se diz quando se fala de viajar no tempo...

 

– Esta viagem é real, não literatura, mas a realidade acaba sendo falsa, porque não podes mudar as coisas.

 

– Não percebo nada – admiti.

 

– É difícil explicá-lo. Podes viajar atrás no tempo e, por exemplo, assistir ao assassinato do presidente Kennedy. Mesmo podes ver se houve uma conspiração ou impedir que Kennedy fosse assassinado, mas ao regressares à atualidade nada do que tenhas feito terá repercussões na história. Ainda que impeças mil vezes que matem Kennedy, cada vez que voltes a este momento histórico verás que Kennedy morreu tal e como o contam nos livros de história e tal e como o gravou Abraham Zapruder. Por essa razão se diz que é uma viagem a uma falsa realidade, já que podes interatuar com todas as pessoas que quiseres ou salvar a vida a alguém, mas não verás nunca nenhuma mudança no futuro ao regressares.

 

– Queres dizer que poderia viajar ao tempo de Jesus e vê-lo morrer na cruz?

 

– Claro – disse Edward, com ênfase. – Mesmo poderias falar com Ele, mas ao regressares, a história real voltará ao seu curso e tu nunca terias falado com Jesus. Por isso os da empresa de videojogos estão tão interessados. Poderiam vender milhões e milhões de consolas.

 

– Como se faz para regressar?

 

– É bastante simples – respondeu Edward. – Há um transmissor de dados que levas sempre contigo. É um simples anel de ouro que te colocam no dedo. Quando quiseres regressar, o único que tens de fazer é tirar o anel do dedo e assim acordarás sem o mais mínimo problema na Sala de Controlo. Claro que a sensação é estranha. Às vezes demoras algum tempo em afazer-te ao mundo atual, sobretudo se viveste meses ou anos no passado...

– Vejo um problema em tudo isto – declarei. – Imagina que viajo ao passado e verifico que Cristo não morreu na cruz, ou que não existiu ou que disse coisas diferentes das que aparecem nos Evangelhos... Isso seria uma convulsão para os cristãos, não te parece? É um perigo real.

 

– Essa é outra coisa em que já se pensou. No caso de figuras tão relevantes como Jesus Cristo, ou Maomé ou Buda, a máquina do tempo apagará todas essas lembranças da tua memória antes de regressares, embora continues a lembrar-te do resto da viagem e de todas as pessoas com que falaste. Isso faz-se assim porque, por exemplo, os muçulmanos proíbem terminantemente uma imagem do Profeta. Imagina que viajasse ao passado um bom pintor. Este poderia realizar um retrato do Profeta baseado nas suas recordações. Por isso há relevantes delimitações à hora de personagens importantes. Não se pode, por exemplo, espiar a vida privada de nenhuma personagem histórica ou publicar que tal ou qual personagem tinha uma amante, ou que tal ou qual pessoa mandou matar alguém... Por isso, ao regressares, os livros de história continuarão a dizer o mesmo que dizem e tu não te lembrarás de nada que possa alterá-los.

 

– Agora que o penso, não é má ideia. A mim, por exemplo, sempre me atraíram os construtores das pirâmides. Poderia viajar ao tempo de Khúfu e ver como as construíram?

 

– Claro que sim – respondeu ele. – Até poderias falar com ele, ou com alguém dos seus ajudantes, ou desvendar o segredo da sua construção.

 

– Guardaria a lembrança de tudo?

 

– De tudo, exceto de aquilo que pudesse alterar a nossa visão atual do mundo faraónico. Por isso, talvez o programa apagasse algumas recordações. De facto, há várias teorias que explicam a construção das pirâmides. Não poderias lembrar-te de nada que favorecesse alguma dessas teorias... Mas, fora disso, poderias lembrar-te de muitíssimas outras coisas que não afetassem nenhum elemento da história antiga ou do conhecimento que temos dela.

 

– E tu, a onde viajaste?

 

– Escolhi assistir ao momento da assinatura da Declaração da Independência. De facto, fui um dos assinantes. Pus a minha assinatura mesmo debaixo da de Matthew Thornton, o representante de New Hampshire... O triste foi que ao regressar ao tempo real a minha assinatura desaparecera! Mas eu lembro-o... E é como se realmente o tivesse feito.

 

– Olha – disse eu –, estou certo de que esse invento vai ser um sucesso de vendas. Quem não gostaria de viajar ao passado e ver o Desembarco de Normandia, ou a chegada de Cristóvão Colombo a América, ou o assassinato de César, ou falar com Fídias, com Miguel Ângelo ou com Leonardo da Vinci ou fazer milhares e milhares de coisas incríveis...

 

– Ainda há outra coisa que não te comentei – disse o meu colega. – Como a viagem no tempo é um programa informático nas redes de um computador quântico, podes escolher qualquer personagem. Podes ser homem ou mulher, um menino, um homem adulto ou um velho, podes ser branco, mulato, asiático ou negro, alto ou baixo, etc, etc... Também podes assumir qualquer função numa sociedade passada. Poderias ser um escrivão no mundo faraónico, um patrício romano ou um soldado napoleónico, o que quiseres.

 

– E posso ser um personagem real que existisse, como Washington?

 

– Não, isso não. Não pode haver dois George Washington no mesmo momento da história – respondeu. – Isso vai contra a realidade temporal.

 

– Entendo-o! – exclamei. – Pois a verdade é que gostaria de experimentá-lo...

 

   Então refleti um momento e coloquei outra pergunta.

 

– Mas se eu fosse, por exemplo, ao Egito faraónico, como me entenderia com eles? Não falo aquela língua.

 

– Essa é outra vantagem do programa – disse Edward. – Podes falar na nossa língua e a pessoa com a que falas o ouvirá traduzido automaticamente à sua língua. Por exemplo, se falares com Jesus Cristo, falarás em arameu, mas tu estarás a falar com ele em inglês, como agora falas comigo. E o que Ele diga em arameu tu o ouvirás em inglês... É uma aplicação realmente magnífica do programa.

 

 

– Eu acreditava que algum dia se conseguiria viajar ao futuro e ao passado, mas que assim a história iria mudar...

 

– No caso do tempo passado não funciona assim. Comprovamo-lo! O passado não se pode mudar. Imagina que viajas a Pompeia o dia da erupção do Vesúvio. Poderás assistir à explosão do vulcão e às suas consequências posteriores. Mesmo poderás morrer à causa da nuvem piroclástica que se seguiu... Nesse caso, imediatamente acordarias na Sala de Controlo do Instituto de Física Experimental sem uma mossa, sem uma ferida e sem te lembrar da dor por teres morrido violentamente.

 

– Parece realmente algo extraordinário, como disseras ao princípio – admiti. – No entanto, parece mais um conto de ficção científica do que um experimento real de Física Quântica...

 

– Acredita em mim – disse Edward. – Eu viajei já uma vez aos Estados Unidos da época da independência e tenho uma vontade enorme de repetir a experiência. Quero participar como mais um soldado na batalha de Saratoga!

 

– Com os ingleses ou com os americanos? – perguntei, para fazer uma piada.

 

– Com os americanos, claro – declarou, sem perceber a piada. – Não sou nenhum traidor, nem agora, nem no passado!

 

– Tenho outra dúvida – insisti. – Também se pode viajar ao futuro?

 

– Não, isso ainda não o conseguimos. Suponho que teríamos de movermo-nos a velocidade muito próximas à da luz, como afirmam as equações de Einstein, mas ainda não o conseguimos...

 

   Olhei para o relógio. Passavam cinco minutos das nove da manhã, o que significava que íamos chegar tarde. Em doze anos eu nunca chegara tarde. Edward apercebeu-se de que eu estava preocupado por isso.

 

– Não te incomodes, homem. Ninguém te vai dizer nada por chegares tarde um dia. Entraremos um bocadinho mais tarde, mas merecerá a pena.

 

– Quando poderia realizar a minha viagem?

 

 

   Suponho que a minha pergunta lhe ia parecer demasiado ansiosa, mas essa era a realidade e não me preocupei por dissimular.

 

– Terei de falar com o doutor Ivánov – respondeu. – Ele é o que se ocupa de tudo. É verdade que esta descoberta se lhe deve... No entanto, quer controlar tudo, até às pessoas que realizam as viagens... Até ao momento, foram apenas cientistas do Laboratório de Física Experimental e do nosso Departamento. Suponho que não porá nenhum problema a que sejas um dos viageiros.

 

– Isso lembra-me ao viageiro no Tempo de Wells. É algo engraçado – admiti.

 

– Hoje falarei com ele para lhe pedir que te inclua na listagem para realizares uma viagem experimental...

 

– Pergunta-lhe se posso viajar ao Egito faraónico, valeu? É uma das minhas paixões.

 

– Isso farei – afirmou Edward. – Não te incomodes com isso. Já verás como tudo vai sair bem.

 

   Edward olhou a hora no relógio. Fez um gesto de contrariedade.

 

– Nove e dez – anunciou. – Já chegamos bastante tarde. Vamos. Eu levo-te no meu aerocarro.

 

   Pagamos as consumições e entrei no seu veículo. Era um Ford Pegasus último modelo. Premeu o botão da anti-gravidade e o aerocarro ascendeu com suavidade até ao primeiro nível das aero-estradas, dirigindo-se com rapidez à Faculdade de Física. Demoramos apenas um minuto em chegarmos. Havia uma vaga, assim que Edward estacionou mesmo à frente da porta principal.

 

– Vou tentar falar com Ivánov esta manhã – comentou Edward. – No caso de aprovar a tua participação, falará contigo pessoalmente antes de começares a viagem. Ah! Por enquanto, suplico-te que guardes silêncio sobre isto e que não fales da investigação fora do círculo de físicos da Universidade. Ainda pode sair mal alguma coisa.

 

– Por exemplo?

 

– O objetivo final do projeto é ganharmos uma boa quantidade de dinheiro com a exploração de uma consola portátil para instalarmos nos lares mais abastados dos países ricos. Neste momento, estamos a trabalhar com uma máquina enorme, que ocupa todo um andar do Laboratório de Física Experimental. Contudo, devemos urgentemente reduzir o tamanho a um mínimo aceitável.

 

– Já sei – acrescentei –, como nos primeiros anos da era informática, quando havia computadores enormes e depois, em décadas, tivemos computadores que cabiam na palma de uma mão, com múltiplas aplicações que nem sonhariam os que construíram aqueles mastodontes dos primeiros tempos.

 

– Efetivamente – admitiu Edward. – É mesmo assim.

 

– O que quer dizer que ainda estais ao começo de um processo que pode levar décadas – sugeri.

 

– É assim – repetiu Edward. – De facto, talvez nos dessem jeito teus trabalhos em física de partículas e em microcomputadores quânticos. Certamente Ivánov vai querer contratar-te quando vos apresente... Não sei se o sabes, mas pagam muito bem.  Seria um bom complemento ao teu salário universitário.

 

   Aquilo despertou o meu interesse. O salário da Universidade não era suficiente para os meus gastos. Chegava com esforço a fim de mês, assim que qualquer quantidade suplementar seria bem-vinda nestes anos de crise geral que vivíamos.

 

– Estaria encantado de colaborar com ele – admiti.

 

   Espero que a minha resposta não tenha soado demasiado ansiosa, pensei para mim.

 

   Despedimo-nos dando-nos a mão e quase com efusividade. Ao menos, foi o que me pareceu.

 

   Quando entrei no meu escritório do Departamento de Física da Universidade, fiquei sozinho durante um bom bocado, sentado perante o ecrã aceso do computador, mas sem realizar nenhuma consulta na rede. Estava a matinar uma e outra vez sobre o que significava para o mundo aquela descoberta...

 

   Durante aquela manhã estive como despistado, sem saber que fazer. Tivera uma aula com os alunos de segundo curso, que passou com mais pena que glória. Algum até me perguntou se me acontecia qualquer coisa.

 

   Quando acabei a segunda aula da manhã (a um dos grupos de primeiro curso), já me encontrava um bocado melhor. Admito que tudo o que me disse o meu colega Edward Morell parece impossível de crer. Mas eu acredito nele e sei que o me contou é verdade. Todas as equações teóricas da física quântica implicadas no tema apontam nessa direção, embora ninguém as conseguisse desvendar até ao momento.

 

   Quando desci à Cantina da Universidade, continuava a pensar na minha futura viagem. Ao menos, não teria de arrumar uma mala, nem teria de pedir um visto para me deslocar a outro país, como quando viajara à China no ano passado, aliás, há já dois anos. Tampouco teria de me incomodar com o dinheiro, com a roupa que levaria ou com os presentes que compraria para a família. Apenas desfrutar da viagem, sem temor a nada e sem os típicos medos e apreensões que nos entram quando empreendemos uma longa viagem.

 

* * *

 

   Essa tarde estive a aguardar ansiosamente pelo telefonema de Edward. Já sabe que prefiro falar com ele antes que me envie uma mensagem por qualquer desses dispositivos dos que tanto gosta a juventude. É melhor ouvir uma voz humana do que uma mensagem no telemóvel.

 

   Eram sete horas quando, por fim, Edward Morell ligou para mim.

 

– Olá, Mike – cumprimentou-me com um tom alegre. – Boas notícias. Ivánov quer falar contigo. Falei-lhe de ti e está muito interessado nos teus trabalhos. Deixei-lhe uma ligação às tuas publicações e ele me disse que ia ler tudo muito atentamente. Também há boas notícias no outro tema. Disse-me que, se quiseres, podes ser o próximo “viageiro”. Dá jeito no próximo sábado?

 

   Aquilo era dentro de cinco dias, já que hoje era segunda-feira.

 

– Claro – respondi. – Perfeito! Que devo levar na viagem? Não posso levar uma mala, pois não?

 

– Ah, ah, ah – riu Edward. – Claro que não, homem. Nada poderia viajar ao passado. Além disso, o programa vai facilitar-te a roupa precisa para a época a que te deslocares, mas deverás mudá-la antes de passar um dia.

 

   Durante o resto da semana, não fiz outra coisa que reler todos os volumes que tinha acerca do Egito (que são muitos) e em descarregar tudo o que pude das redes de informação sobre a época a que queria viajar: fins da terceira dinastia ou plenamente na quarta. Não me importava que fosse à época de Húni, de Sneferu, de Khúfu, de Djedefra, de Kefrén ou de Menkaura. Qualquer daqueles reinados me valia perfeitamente.

 

   Enquanto passavam os dias, o nervosismo ia aumentando. E também a excitação por poder participar daquele momento único. O doutor Ivánov estava convencido de que poderiam reduzir o tamanho da máquina do tempo, mas eu, que para isso levo toda a vida trabalhando na miniaturização das componentes essenciais dos computadores quânticos, temo que não seja assim tão fácil. Se calhar é impossível e a máquina que existe no Laboratório de Física Experimental acabe por se transformar na única da sua espécie que se construa no mundo. Ou se calhar ele tem razão e todas as pessoas vão poder ter uma no salão! Só o futuro no-lo poderá aclarar!

 

* * *

 

   A manhã do sábado combinara com o doutor Ivánov para falarmos. Encontramo-nos na Cantina universitária, que se localiza perto da minha Faculdade e do seu Laboratório.

 

   O doutor Ivánov é um homem de uns sessenta anos, com cabelo branco, grandes óculos e com o rosto sulcado por profundas rugas. Tem um aspeto adusto, pois veste invariavelmente com fato e gravata, sempre de cor escura.

 

– Já me falou o doutor Morell de você – disse ele, num inglês quase perfeito, mas com um levíssimo acento russo – e ponderou as suas qualidades como professor de física de partículas...  Li os seus trabalhos sobre miniaturização dos componentes essenciais dos computadores quânticos e fiquei muito impressionado. Isso é o que precisamos para reduzir o tamanho da máquina da entropia inversa... Agora ocupa um espaço de duzentos metros quadrados e deveríamos poder reduzi-lo ao tamanho de uma consola portátil...

 

– Uma máquina de entropia inversa? A sério? Não posso acreditar que isso seja possível!

 

– Pode acreditar – replicou o doutor Ivánov. – De facto, já comprovamos que funciona. Utilizei o segundo princípio e a segunda lei da termodinâmica. Não vejo outra forma de o conseguir. Sabes como é: “A quantidade de entropia de qualquer sistema isolado termodinamicamente tende a incrementar-se com o tempo, até alcançar um valor máximo”. Eu o que fiz foi reverter a entropia. O único problema é o tamanho mastodôntico da máquina, por não falarmos da quantidade de energia que consome. Pesa toneladas e toneladas e ocupa quase todo um andar do Laboratório. Precisamos urgentemente reduzir o seu tamanho.

 

   Estava atónito. Aquilo era uma reviravolta inesperada na pesquisa. Durante uns momentos fui incapaz de dizer nada.  O doutor Ivánov aproveitou para continuar com a sua intervenção.

 

– No caso de incorporar-se à investigação, deverá assinar um compromisso de confidencialidade absoluta, que abarcará qualquer aspeto do projeto e outro compromisso de que não trabalhará para qualquer empresa alheia à investigação nos próximos dez anos. O salário que lhe pagaremos é uma quantidade equivalente a que está a receber atualmente na Universidade, o que implica que as suas receitas se duplicariam...

 

– E será compatível com o meu trabalho universitário? – perguntei.

 

– Sem qualquer dúvida – respondeu Ivánov. – A própria Universidade apoia a equipa científica implicada no projeto. Pense também na repercussão mundial que seria para todos os que trabalhemos nisto, incluindo-o você, se conseguíssemos reduzir o tamanho da máquina da entropia inversa.

 

– Para mim o sucesso já existe – admiti. – Uma máquina como esta pode ser de muita utilidade para a humanidade.

 

– Não queremos utilizar a máquina da entropia inversa como um instrumento para que os professores de história possam preencher as lacunas que têm nas suas áreas de investigação ou para que algum erudito viaje ao passado para aprender de cor os poemas de Safo e assim oferecer à humanidade o regalo da sua poesia numa edição crítica da sua autoria...

 

– Pois para mim a história seria um dos âmbitos mais beneficiado – comentei – se não censurarmos as descobertas obtidas pela máquina do tempo.

 

– Prefiro chamá-la máquina da entropia inversa – replicou Ivánov. – Ademais, Edward já me disse que falaram de tudo isto e da razão pela qual não permitimos a obtenção de provas científicas nas viagens. Contudo, estou de acordo em que podemos tirar muitas vantagens no estudo do passado sem mudarmos a nossa visão da história antiga.

 

   Então, o doutor mudou totalmente de tema, como se estivesse a desgosto com a conversa.

 

– Combinamos às cinco da tarde diante da porta do Laboratório de Física Experimental, OK? Seja pontual!

 

   Sem aguardar uma resposta, ergueu-se da cadeira que ocupava e procurou a porta com a olhada. Uns segundos depois vi, através do vidro da janela, como se afastava em direção ao seu centro de trabalho.

 

   Era o momento oportuno para regressar ao meu gabinete. Ainda devia repassar o meu artigo para a revista da Universidade, que este mês tratava sobre os computadores quânticos. Aquele sim que era um âmbito no qual era um perito e não a entropia inversa!

 

 

* * *

 

  

   Ao chegar ao Instituto de Física Experimental essa tarde do sábado, Edward Morell e o doutor Ivánov estavam aguardando por mim no exterior, frente à porta principal. Faltava pouco para as cinco da tarde e estava um esplêndido dia de sol e com um céu quase sem nuvens.

 

   Cumprimentamo-nos cortesmente e entramos no edifício. Ali dentro, detrás de uma secretária de metal polido, uma mulher jovem trabalhava frente ao ecrã aceso de um computador quântico. Havia também um par de guardas armados, de aspeto distraído, mas com pistolas ao cinto, e três pessoas de bata branca, que se dirigiram a um quarto à direita, que fecharam depois de entrarem nele.

 

   Nós os três dirigimo-nos ao mostrador, onde tive de mostrar o meu cartão para acreditar a minha identidade e que, dessa maneira, o sistema me registasse. Depois, mostraram-me a Sala de Controlo, que está no andar inferior, onde havia em total sete pessoas (alguns deles eram simples técnicos, mas também vi um dos professores do Departamento de Física Experimental, que conhecia de vista). O doutor Ivánov disse-me que ali monitorizariam a minha “viagem”. Aproveitei para dar-lhes instruções precisas do lugar e o tempo onde queria viajar e não puseram nenhum problema à minha escolha, o que me pareceu maravilhoso...

 

   Ao subirmos ao segundo andar, a enorme máquina surpreendeu-me vivamente. Já me disseram que era grande, mas o seu tamanho era simplesmente colossal. Ocupava quase todo o andar, deixando apenas um quarto livre, onde estava colocado um confortável sofá de couro preto. Uma máquina pequena, de um metro de altura, retangular e também de cor preta, situava-se, isenta, à direita do sofá. No frontal viam-se todas as conexões. Tinha muitas luzes cintilantes de cores amarelas, vermelhas ou verdes e vários ecrãs acesos. O maior teria umas dez polegadas, mas havia outros quatro, de menor tamanho, com cifras e letras luminosas.

 

– Pode sentar-se, doutor? – convidou-me Ivánov.

 

   Quando me sentei, comprovei que o sofá era muito confortável. Estava cómodo e tranquilo nele. O doutor Ivánov colocou-me sobre a cabeça um capacete de cor preta, com a viseira alçada. Ele premeu um botão da pequena máquina e senti um calor suave a emanar do capacete que me colocara.

 

– A viagem vai iniciar-se num par de minutos – comentou. – No entanto, deve manter fechados os olhos durante esse tempo. Ao colocar-lhe a viseira sentirá um sopor a envolvê-lo e uma doce sonolência. Depois transcorrerão uns instantes em que as cores começarão a aclarar-se e sentirá que se encontra no lugar escolhido. Lembre que, se quiser deixar de viver no mundo onde foi enviado, quer por não gostar da experiência quer porque simplesmente deseja regressar, o único que deve fazer é tirar o anel da mão. No caso hipotético de que estivesse impedido para fazê-lo, diga em alto a frase: “Desejo regressar ao nosso tempo” e aparecerá aqui, instantaneamente, neste sofá. Percebeu?

 

– Sim, senhor doutor. Perfeitamente...

 

   Quando ele fez descer a viseira do capacete, uma escuridão total me envolveu. Senti durante instantes as vozes apagadas de Ivánov e de Edward Morell, que comprovavam as conexões. Fechei os olhos e imediatamente senti uma sonolência deliciosa e uma sensação de calma e de tranquilidade. Adormeci. Tinha clara consciência disso, apesar do estupor.  Não sei quanto tempo passei nesse estado, se foram minutos ou horas, até que comecei a recobrar o sentido.

 

* * *

 

   Então ouvi um som indecifrável e abri os olhos. Estava deitado numa zona florestal, ao pé de vários sicómoros e de umas altas palmeiras dispersas. Estava calor. Muito calor comparado com o clima a que estava acostumado. Olhei para o meu próprio corpo. A cor da minha pele era algo mais escura do normal. Usava como única veste um fraldelim de linho, vasto e sem tingir. Nos pés levava umas sandálias de desenho muito simples. Tratava-se de uma sola de madeira forrada de pele de vaca com um aro de corda para o dedo polegar do pé e uma fita simples para atá-lo ao calcanhar.

 

   Ergui-me da relva onde tinha permanecido deitado. Não vi ninguém ao meu redor. A umas milhas de distância o rio Nilo discorria placidamente entre duas margens viçosas: um fio de verdor no meio da imensidade do deserto.

 

   Encontrava-me na margem esquerda do rio. Entre as árvores, ao longe, vi a vela branca de uma falua a movimentar-se em direção norte, ajudada pela força da corrente, que invariavelmente segue nessa direção. A zona de árvores onde me encontrava situava-se a meio caminho entre a margem do rio e a orla do deserto. Ali, a lentura do solo, o odor da terra fresca e a placidez daquele lugar assombrado fez-me sentir uma sensação de calma e de paz absoluta. Ao virar-me para o lado contrário ao do rio, observei o deserto com as suas areias vermelhas, abrasadas pelo sol. Na época do Império Antigo o clima egípcio era menos rigoroso do que na atualidade, por isso não me surpreendeu que no começo da zona desértica, no limite entre a terra preta e a terra vermelha, houvesse zonas relvadas e alguma árvore solitária, mesmo na faixa que delimitava ambas as zonas. Nos últimos cinco mil anos o clima egípcio fora tornando-se cada vez mais cálido e por isso aquela zona de transição entre o deserto e a zona cultivada ainda não tinha desaparecido totalmente.

 

   Para onde ir? Supus que devia dirigir-me para norte, onde se encontrava a cidade de Mênfis (a antiga Inébu-Hédy) e depois seguir para o Delta, que ao contrário do que na atualidade, era naquela altura a zona menos desenvolvida do país.

 

   Caminhei lentamente durante uns minutos, em direção à margem do rio. Havia algumas casinhas dispersas. Então, reparei nalgumas pessoas a trabalhar nos campos. Havia pouco tempo que amanhecera, porque o sol ainda não percorrera mais que duas partes das doze nas quais os egípcios dividiam as horas de sol. Não sabia, no entanto, em que mês nem em que estação estaríamos. Eles dividiam o ano em três estações chamadas Akhet, Peret e Shemu e cada estação em quatro meses de trinta dias, divididos em três semanas de dez dias, a que acrescentavam cinco dias suplementares, dedicados aos seus cinco deuses principais. Talvez, ao chegar ao rio, descobrisse qual era o momento concreto do ano em que nos encontrávamos, tendo em conta o caudal que leva o rio. O que parecia claro era que já não estávamos no tempo da inundação, que no Antigo Egito começa em julho e chega até o outubro, reduzindo-se o caudal abruptamente desde esse momento.

 

    Descobri um trilho que atravessava os campos cultivados, que segui durante um bom bocado, até que finalmente cheguei à margem do grande rio. O Nilo levava naquela altura pouca água. A escassa quantidade de água indicava que devíamos estar numa época entre meados de março e começos de julho. Depois vi passar, na zona central do rio, onde havia algo mais de caudal, uma formosa falua com uma vela branca. A imagem era como um postal.

   Enquanto caminhava a rente da margem, vi chegar uma pessoa, que vinha em direção contrária. Era uma mulher de mediana idade, que levava uma menina da mão.

 

   Ao chegarem à minha altura, cumprimentei-os e perguntei se estava longe de Inébu-Hédy.

 

– Não, senhor – respondeu ela. – Está apenas à meio itéru de distância.

 

   Meio itéru significava que ainda restavam umas três milhas e meia (ou uns cinco quilómetros) de distância para chegar à cidade. Apesar de que não estava longe, um grande meandro impedia-me vê-la na distância.

 

    Algo mais adiante, encontrei uma zona de ilhéus, povoados por uma incrível quantidade de fauna selvagem. Alegravam as margens extensas formações de juncos e de papiros e nas alturas voavam patos e gansos de cores formosas .

 

    Então, sem quase reparar por isso, cheguei a um pequeno povoado. Era uma aldeia composta por duas dúzias de casas de adobe, pintadas de branco.

 

   Estava cansado, pelo que me sentei na margem. Tirei as sandálias e meti os pés nas frescas águas. Que indescritível prazer senti! As águas do Nilo são sagradas para os sedentes e para os cansados.

 

   Senti um rumor às minhas costas. Ao virar-me, vi uma mulher avançar. Era a mulher mais formosa que vira na minha vida. Teria uns dezoito ou dezanove anos, o que para a esperança de vida dos egípcios daquele tempo, que era de uns trinta anos, indicavam que era uma mulher madura. Eu, que tinha quarenta e seis anos, devia ser quase um velho para eles, porque poucos chegavam à minha idade naquela época.

 

– Olá – cumprimentei-a. E esbocei um sorriso.

 

– Olá – respondeu. – Quem é você?

 

– Chamo-me Djédi – respondi.

 

   Escolhi arbitrariamente aquele nome por uma personagem que aparece no papiro Wetscar. Trata-se de um famoso mago da época de Khufu, talvez filho do príncipe Rahotep, meio-irmão do rei.

 

– E você, como se chama?

 

– Chamo-me Mérit – sussurrou. – O senhor é estrangeiro?

 

– Não, não – respondi. – Por que o pergunta?

 

– Parece de outro país! – comentou ela. – Deu-me essa impressão ao vê-lo...

 

– Bom, em realidade acabo de chegar de um país muito afastado, pelo que se poderia dizer que acertou.

 

– Sim? Que bom! – exclamou ela.

 

   Deu-me a impressão que ela estava preocupada. Parecia inquieta e não deixava de esfregar as mãos ou de se tocar o cabelo, que tinha comprido, de uma formosa cor preta.

 

– Algum problema? Parece preocupada!

 

– É que o meu pai está doente – admitiu. – Ontem estava perfeitamente e hoje parece que a vida se lhe vai em cada respiração...

 

– Não me diga! Sinto-o muito! Poderia vê-lo?

 

– Para quê? – perguntou ela, como surpreendida do que lhe propunha.

 

– Estudei na Casa da Vida – respondi. Era mentira, claro. No entanto, a Casa da Vida dos egípcios era o equivalente naquele tempo a uma Faculdade de Medicina, assim que tinha algo de verdade.

 

– Está certo. Pode vir.

 

   Mérit levou-me a uma casa de adobe que se encontrava muito perto de ali. Dentro encontrava-se o pai dela e a sua mãe, que se encontrava totalmente abatida, temendo pela vida do marido.

 

   Ao momento reparei em que o velho tinha uma ferida infetada na mão esquerda.

 

– Que lhe aconteceu?

 

– Estava segando erva para os nossos animais e se fez uma pequena ferida na mão – respondeu Mérit. – Ao princípio, meu pai não lhe ligou a mais mínima importância, porque não era nada. Mas agora, já pode ver que a ferida supura pus e cheira mesmo mal.

 

– Quando foi isso? – perguntei.

 

– Haverá uns três dias – respondeu Mérit.

 

– E depois de fazer-se a ferida esteve com o gado ou em contacto com estrume ou com a água do rio?

 

– Sim, senhor – respondeu ela.

 

   Aproximei-me ao velho e, sem pegar na sua mão, senti um cheiro fétido. A ferida infetara-se e a gangrena começara a estender-se pelo sangue. Era a típica ferida que se produzia nas guerras e que causava milhares de mortos antes que se estendesse o uso da penicilina. No entanto, eu não tinha penicilina ali nem saberia como criá-la naquele tempo. Pelo que a única solução era cortar-lhe a mão para evitar que a gangrena se estendesse ao corpo e acabasse matando-o.

 

– É gangrena – comentei. – Uma enfermidade devida a uma ferida infetada.

 

– Pode ajudá-lo? – suplicou Mérit, tentando afogar as lágrimas nos seus formosos olhos, que estavam húmidos e brilhantes.  

 

– Se o não tratarmos imediatamente morrerá em dois ou três dias – comentei. – Mas para salvar-lhe a vida devo amputar-lhe a mão por debaixo do cotovelo.

 

– E viverá se lhe fizer isso? – insistiu Mérit, com o rosto lívido.

 

– Há bastantes possibilidades de salvar-lhe a vida se o fizermos – respondi. – Mas no caso contrário, morrerá sem remédio. Talvez seja melhor perguntar a ele, não é?

 

   Mérit e a sua mãe assentiram. Era uma decisão difícil para eles, assim que saí da pequena casinha e aguardei à porta.

 

   Ao cabo de uns dez minutos, Mérit saiu e me disse que o pai aceitava.

 

– Que precisa, meu senhor, para salvar a vida do meu pai?

 

   Na voz de Mérit havia emoção contida e certo respeito. Supus que nunca tinha visto um médico na sua vida.

– Preciso que ponham água a ferver, para lavar a ferida e umas vendas de linho, que deveremos ferver em água, que também nos servirá para esterilizar o material que vamos usar. Precisarei também um machado ou um cutelo muito afiado... Tendes uma serra? Não? Então o machado estaria bem. Preciso de um lume aceso durante todo o tempo e ter à mão todas as coisas. Alguém deve ajudar-me, porque a operação vai ter a sua dificuldade. E, finalmente, preciso de uma boa quantidade de vinho ou de cerveja, para que o seu pai beba o que puder e assim não sinta a dor que lhe causará o machado. De acordo?

 

   Mérit estava pálida, mas assentiu. Estão entrou em casa e chamou a mãe para que a ajudasse. Depois, das casas vizinhas vieram umas mulheres as que Mérit explicou que eu era médico da Casa da Vida e que ia ajudar seu pai. Todas olharam para mim como se eu fosse um anjo da guarda ou algo assim.

 

   Meia hora depois tinha tudo o que precisava. Lavaram com água a ferver umas prendas de linho com as quais fiz vendas. Também desinfetei as ferramentas e me lavei cuidadosamente as mãos.

 

   Quando o pai de Mérit acabou de beber quase um litro de cerveja e outro tanto de vinho, pareceu-me que era o momento. Ele estava ainda meio acordado, mas com a bebedeira que tinha não ia dar nenhum problema. Ainda assim pedi a Mérit que chamasse três homens da aldeia para ajudar-me. Aqueles camponeses simples estavam muito assustados, mas ajudaram-me da melhor maneira que souberam.

 

   O momento mais complicado foi quando lhe seccionei o braço, por debaixo do cotovelo. O pai de Mérit não deu nem um berro, nem quando supurei a ferida com lume, para evitar que morresse devido à perda de sangue. Ficou ali, meio adormecido, com os olhos abertos fixos no teto, até que ao cabo de um rato adormeceu. Era o melhor para ele. Depois vendei a ferida do braço e despedi os meus ajudantes, que estavam assombrados pelo que tinham visto.

   Quando Mérit entrou, estava ainda muito mais nervosa do que anteriormente.

 

– Não se incomode, Mérit – eu disse. – Tudo saiu bem. Agora o único que devemos fazer é aguardarmos. Quando seu pai acordar, veremos como se sente.

 

   Como me parecia que ela não sabia que fazer, atrevi-me a sugerir:

 

– Há algum lugar para eu ficar? Quisera acompanhar a evolução do seu pai nos próximos dias e devo estar por aqui perto.

 

– Sim, meu senhor – respondeu ela. – Não me atrevia a pedir-lho. Pode ficar em casa da minha tia Mereret e do meu tio Úni. Desde que lhes morreu o filho estão sozinhos e têm lugar na sua casa. Parece-lhe bem?

 

– Parece-me muito bem – respondi, esboçando um sorriso. – Pode falar com eles e comprovar que não há problema em que eu fique ali esta noite?

 

– Agora mesmo vou – disse Mérit. E saiu quase a correr.

 

* * *

 

   Aquela noite, efetivamente, dormi em casa de Mereret e de Úni. Era um casal maduro (pelos padrões egípcios), que me receberam com muita simpatia. Na pequena aldeia, os três homens que assistiram à minha “intervenção” ponderaram enormemente as minhas habilidades e agora havia pessoas que queriam que as tratasse das suas doenças. Nos Estados Unidos apenas fizera dois anos de medicina, mais que nada por cumprir-lhe o gosto à minha mãe, que sempre quis um médico na família. Mas não acabei por finalizar a licenciatura, devido ao tempo que demorei em tirar o meu doutorado em física de partículas e pelo mestrado em computadores quânticos que realizei posteriormente.  Mas sempre, desde então, tivera mágoa de não ter acabado aqueles estudos, já que a medicina era a minha segunda paixão, depois da física. No entanto, (quem o ia dizer?) aqueles dois anos eram como um tesouro de conhecimento nesta terra, cuja medicina, apesar de ser a mais avançada do mundo neste momento concreto da história, era praticamente inalcançável para a maior parte da população.

 

* * *

   Ao acordar, fui ao rio para lavar-me e depois dirigi-me à casa de Mérit. Ao abrir-me a porta reparei que ela e a mãe pareciam mais animadas do que no dia anterior.

 

– Meu pai acordou há um par de horas – informou ela. – Diz que lhe dói o lugar onde tem a ferida, mas ainda assim sente-se muito melhor. A febre desceu muito...

 

– Vou vê-lo! – exclamei.

 

   Entrei naquele quarto em penumbra e me dirigi ao catre onde repousava o pai de Mérit. Tinha melhor cor do que ontem. Apesar de que ainda tinha febre, animou-me comprovar que tudo parecia estar a correr bem.

 

– Preciso que aqueçam água para lavarmos as vendas – disse às duas mulheres. – É para fazermos uma nova cura.

 

  Mérit e a mãe foram cumprir o que lhes encomendara, enquanto eu ficava à cabeceira do catre do pai.

 

– Como se sente? – perguntei-lhe.

 

– Bastante melhor – admitiu, a olhar para mim com olhos tristes.

 

– Ou era isso ou ia morrer devido à infeção.

 

– Eu já me dava por morto – confessou – e a minha mulher e a minha filha pensavam o mesmo. Quero agradecer-lhe a sua ajuda...

 

   Depois, mudando de tema, perguntou:

 

– O senhor estudou na Casa da Vida, não é?

 

– Sim, claro – admiti. – Mas também estudei num país muito afastado de aqui. Por isso sei algumas coisas que os médicos do país de Kemet não sabem.

 

– Minha filha Mérit diz que o senhor deve ser um grande sábio e quando o rei o souber irá reclamá-lo para que acuda ao seu lado e assim convertê-lo no seu médico pessoal.

 

– Quem sabe o que nos deparará o futuro! – exclamei.

 

   E sorri ao comentar aquilo, porque sabia muito bem o que significava o que acabava de dizer.

 

– A propósito, como ontem não nos apresentaram... Eu chamo-me Djédi.

 

– Eu chamo-me Ítu – respondeu – e minha mulher chama-se Neferet. Tenho a impressão de que já conhece a minha filha...

 

    Durante o resto daquele dia, estive a entrar e a sair várias vezes daquela casinha de adobe, não só para seguir a evolução de Ítu, mas também para estar perto de Mérit. Cada vez que me sorria ao entrar ali, era como se a luz das estrelas cintilasse naquele lugar.

 

 

* * *

 

 

    Passaram os dias e cada vez vinham mais pessoas à aldeia para que eu as tratasse. A minha fama começara a espalhar-se pelas redondezas. A maior parte das pessoas que se acercavam a ver-me eram simples camponeses ou pescadores. Sempre me traziam algo de comer para pagar os meus serviços: Um pato assado, trigo, uns peixes recém-apanhados, dateis... Não levava ali nem um mês quando chegou um nobre de Inébu-Hédy para que lhe tratasse um braço roto. Era Kái, capitão da guarda de Hawab, filho de Khúfu, herdeiro do trono. Lembro bem que Hawab morreu antes de tornar-se em rei, passando a linha dinástica a Djedefra. A história antiga teria sido muito diferente se aquilo não tivesse acontecido... E agora via-me em contacto com alguém que estava ao seu serviço! 

 

Com os precários meios que tenho aqui, acho que tratei o braço roto bastante bem. Disse-lhe que devia regressar dentro de uma semana para realizar a seguinte cura e ele, por primeira vez, entregou-me um deben de prata como pagamento pelos meus serviços. Ofereci-o a Mérit e ela ficou encantada, porque nenhuma mulher na aldeia possuía nada parecido.

 

   A encantadora Mérit já sabe o que sinto por ela e, graças a Deus, parece que também retribui os meus sentimentos. Nunca na vida tinha sido tão feliz como nesta pequena aldeia, ao pé do Nilo.

 

   Quando uma semana depois regressou Kái, o capitão de Hawab, disse-me que na capital precisavam urgentemente dos meus serviços. Tinha trazido o seu filho Karef, um jovem bem parecido, que também seguia a carreira militar, e com eles trouxeram um par de cavalos suplementares.

 

 – Meu senhor – disse-me ele com grande cortesia – preciso que me acompanhe a Inébu-Hédy para tratar do meu sobrinho Bébi. Estou convicto que se não contar com a sua ciência, morrerá. Já apresentei o caso aos médicos da Casa da Vida e não conseguem fazer nada por ele. Assim que decidi acudir ao senhor, para salvar-lhe a vida.

 

– Quais são os sintomas que apresenta?

 

– Tem uma dor terrível no estômago, na parte direita. Cada vez que se lhe toca aí dá um berro de dor – comentou o filho.

 

   Pelo que dizia, supus que seria apendicite.

 

– É nesta zona onde lhe dói? – e coloquei a minha mão no meu próprio corpo, no ponto de McBurney, para indicar o lugar preciso.

 

– Exatamente aí – disse o capitão.

 

– A dor está acompanhada por febre e por vómitos? – perguntei.

 

– Sim, meu senhor. É assim exatamente.

 

– Quando começou a sentir-se mal? – insisti.

 

– Anteontem foi a primeira vez que se queixou de uma dor muito forte – disse o jovem.

 

– Devemos tratá-lo urgentemente, porque em caso contrário poderia produzir-se uma peritonite que, com os meios dos que disponho aqui, seria uma morte segura.

 

– Pode vir connosco, senhor? – suplicou o capitão da guarda.

 

– Tinha de fazer-lhe a nova cura ao seu braço... Mas se é assim tão urgente, poderia fazê-lo ao chegarmos à casa do seu amigo. Parece-lhe bem?

 

   Eles mostraram-se muito conformes com a minha decisão.

 

– Também queria que nos acompanhasse Mérit. Pode ser?

 

   Os dois homens olharam-se e intercambiaram uns sorrisos.

 

– Claro que pode ser, meu senhor! Trouxemos dois cavalos suplementares, assim que não há problema.

 

   Quando lhe disse a Mérit se queria acompanhar-me a Inéby-Hédy disse que sim ardorosamente. O pior do assunto foi que ela nunca tinha montado a cavalo.

 

   Tive de aguardar um bocadinho a que ela apanhasse algumas coisas e aproveitei para falar com aqueles dois soldados. Contaram-me que se estava a preparar uma expedição ao país de Punk, que era como eles chamavam Núbia e que o senhor das Duas Terras preparava um exército de cinco milhares de homens armados.

 

  Uns quinze minutos depois apareceu Mérit com um saco de viagem ao ombro. Estava preciosa, como sempre. Ajudei-a a montar e peguei nas suas rédeas, para evitar que o seu cavalo fizesse algum movimento estranho e a derrubasse da sela.   

 

   Apesar de que isso nos obrigou a ir mais devagar, os dois homens não se queixaram e trataram Mérit com muita cortesia.

 

   A cidade de Inébu-Hédy estava bastante perto da aldeia, embora pelos meandros que forma aqui o Nilo, não se podia ver diretamente. O passeio foi encantador, como se estivéssemos dentro de um sonho. Apenas demoramos meia hora em chegarmos. Era uma cidade formosíssima. Estava quase toda rodeada por uma muralha branca, de que recebe o nome.

 

    Havia numerosos templos e edifícios belamente trabalhados, cheios de cores vivas e com numerosas colunas, pórticos e pilonos.

 

   Infelizmente, não pude desfrutar como queria da visão daquelas maravilhas. Dirigimo-nos sem nos demorar um segundo ao lar de Bébi.

 

   Ao chegarmos, um par de criados estava a aguardar por nós e, quando lhes explicaram quem éramos, conduziram-me com rapidez ao quarto do doente. Estava deitado na sua cama, adornada com as figuras da deusa Hut-Hor. Ao olhar para ele, descobri que a apendicite estava muito avançada e que era preciso operar à maior brevidade possível. Assim que comecei a pedir todas as coisas que precisava e os criados de Bébi cumprimentaram os meus desejos com a mesma rapidez. Era necessário que o doente adormecesse, assim que lhe preparei um sonífero que preparara com algumas plantas que se acham no país. No entanto, como nunca o tinha provado numa pessoa, preferi que também bebesse uma boa quantidade de vinho, até que adormeceu.

 

    Tive a precaução de solicitar a presença de Kái e de Karef. Disse-lhes que deveriam evitar que Bébi se movesse quando lhe fizer a incisão na zona do abdómen. Ficaram ali, ao pé da cama, enquanto eu trabalhava. Por sorte Bébi não acordou. A beberagem que lhe dera era efetiva, assim que a poderei empregar em situações como esta no futuro. Quando retirei o apêndice, ficaram muito admirados da minha perícia e de que Bébi quase não sangrasse. Lavei a ferida com muito cuidado e depois solicitei um quarto para ficar aquela noite, já que a operação me levara bastante mais tempo do que pensava.

 

   Os dois homens olhavam para mim como se estivessem a olhar para um deus reencarnado. Falavam em sussurros entre eles e me trataram com uma cortesia extrema.

 

   Mérit e eu ficamos num quarto perto do de Bébi. Era a primeira vez que dormimos juntos. A primeira noite de amor. Para mim era como se tivesse chegado ao paraíso.

 

   No meio da noite ergui-me para ir ver Bébi. Estava bastante tranquilo. Kai ficara ao pé dele e estava muito contente. Quase exultante.

 

– Nunca vi nada igual, meu senhor! Onde aprendeu esta classe de magia?

 

– Não é magia – comentei. – Apenas medicina.

 

– Ninguém nas Duas Terras sabe como tratar esta enfermidade – comentou. – Os médicos da Casa da Vida disseram que havia que aguardar e encomendar-se aos deuses.

 

– Encomendar-se aos deuses é sempre uma boa ajuda – sorri. – Quem confia nos deuses recebe sempre uma recompensa, embora não sempre da maneira que aguarda.

 

   Kái sorriu com franqueza.

 

– Vejo que o senhor é um grande sábio e um excelente médico – comentou.

 

– O seu sobrinho ainda não está totalmente bom. Ainda há uma possibilidade de que não possa superar a operação...

 

– Estou convencido que viverá. Não o vê? Tem um aspeto excelente. Não me estranharia que num par de dias possa erguer-se da cama.

 

– Se tudo correr bem, assim será!

 

   Kái voltou a olhar para mim como se estivesse a falar com um mago.

 

– Se Bébi consegue sobreviver, você não vai ter um segundo de descanso... Todos os nobres do reino quererão acudir ao senhor para tratar os seus ferimentos ou as suas enfermidades...

 

– É possível – admiti – No entanto preciso de tempo para mim e para a minha adorada Mérit. E agora, se me desculpa, vou regressar ao seu lado...

 

– Claro, meu senhor – disse Kái.

 

– Avise-me imediatamente no caso de que seu sobrinho acorde ou se houver alguma mudança qualquer...

 

   Mérit estava acordada quando entrei no quarto. Perguntou-me por Bébi e ficou muito tranquila quando lhe disse que seguramente ia ficar bom. Ela olhava para mim com os olhos brilhante e não pude evitar mergulhar-me novamente nos seus braços...

 

 

* * *

  

 

   À manhã seguinte, quando fiz a cura a Kái, este estava muito contente. O seu sobrinho Bébi acordara e parecia encontrar-se perfeitamente. Não sentia a mais mínima dor. Quando Kái lhe mostrou o apêndice que lhe tirara, quase não acreditava que aquilo tivesse estado dentro do seu corpo. Depois chamou por mim e falamos durante um bom bocado, até que me retirei de ali, para deixar que descansasse um bocadinho mais.

 

    Ficamos três dias em Inébu-Hédy. Mérit já conhecia a cidade, pois tinha vindo em várias ocasiões, mas para mim era tudo uma descoberta contínua de cores, de sabores, de cheiros e de sensações novas.

 

   Consegui visitar o famoso templo de Ptah, que é o deus principal desta província e assistir às cerimónias religiosas, que foram algo totalmente surpreendente para mim.

 

    No entanto, eu só tinha olhos para Mérit. Tentei que a sua estância na cidade fosse agradável e ela retribuiu-me esses desvelos com todo o seu amor.

 

   Finalmente, regressamos à nossa aldeia. Contudo, como sabia que iria regressar em breve à cidade, devido aos novos compromissos que me iam surgir, tive a precaução de alugar uma casa dentro do perímetro da muralha. Era três vezes maior daquela em que vivem Mérit e seus pais. O meu desejo é que nos translademos os quatro a ela, para que os pais de Mérit possam desfrutar aqui dos anos que lhe ficam de vida e para que nós possamos estar sempre juntos. Também tratei com o dono da casa a possibilidade de contratar uma servente e ele ficou em que ia procurar alguma pessoa de confiança.

 

 

* * *

 

 

– Não vou regressar ao meu país – confessei a Mérit, uma semana depois de voltarmos.

 

– Porquê? – perguntou ela, a olhar para mim com olhos incendiados, que brilhavam como as estrelas.

 

– Não o sabes? – perguntei.

 

– É por mim? – disse, num murmúrio. Um leve rubor tingiu o seu formoso rosto.

 

– Claro. Quero ficar aqui contigo. Importaste?

 

– Não. Claro que não – respondeu. – Mas és médico. O melhor médico das Duas Terras. E o teu lugar está na Casa do Rei, onde os nobres pagariam fortunas por obter os teus serviços.

 

– Pois então iremos juntos – sugeri. – Não quero passar nem um dia da minha vida sem ti. Tive de atravessar oceanos de tempo para achar-te e agora não suportaria perder-te.

 

   Mérit aproximou-se a mim e me abraçou com força. Então, ao dar-lhe um beijo, senti que uma abrasadora onda de paixão me inundava. Nunca fora tão feliz. Ao fim encontrava o meu lugar no mundo.

 

– Quero pedir-te uma coisa muito importante para mim – disse a Mérit, a olhar para ela com os olhos incendiados.

 

– Que queres, querido?

 

– Desejo pedir-te uma coisa... É muito importante! Se eu morrer antes de ti, quero que deposites tu mesma o meu corpo na minha tumba, sem entregá-lo aos embalsamadores e sem deixar que ninguém o toque... E, ademais, evita que ninguém me tire este anel que levo na mão, porque quero ser enterrado com ele. Isso é muito importante para mim. Prometes-mo?

 

– Eu farei o que desejares, querido – respondeu Mérit. – Mas dessa maneira o teu corpo acabará por descompor-se e não alcançarás os Campos de Iáru.

 

– Não acredito nessas coisas, Mérit. Não vou perder nem um instante em ocupar-me do meu corpo. Coloca-o apenas num sepulcro profundo, fechado por uma lápide de granito e, depois, oculta a entrada à câmara da melhor maneira possível. Se tiver tempo eu próprio procurarei um lugar adequado... Não preciso de nenhuma oferenda para o meu ka. Assim que depois do funeral, terás cumprido o meu desejo e eu te ficarei eternamente agradecido...

 

– Mas eu quisera ter um funeral tradicional – sussurrou, quase com medo.

 

– Com certeza, querida. – Terás o melhor funeral que possa dar-te. Em caso de morreres antes de mim. E no caso mais provável que eu morrer antes de ti, deixarei tudo o que possua para oferecer-te um descanso que apenas uma princesa real poderia superar. Essa é a minha promessa!

 

   Ela abraçou-me novamente com força. O seu rosto era formoso como a lua. Oxalá pudesse petrificar o tempo e que não passasse... Aquele instante de felicidade era tão intenso que senti inundar-me uma maravilhosa sensação de calma, que nem a dor nem a morte poderiam derrotar!

 

 

* * *

 

      A Sala de Juntas do Laboratório de Física Experimental acolhia uma reunião de pessoas com os rostos sérios e com olhares nervosos. Em total eram cinco homens e quatro mulheres, todos eles (exceto o doutor Ivánov, que falou em primeiro lugar), vestidos com as típicas batas brancas.

 

– Como sabem, o doutor Mike Hernández leva já três dias conectado à máquina da entropia inversa, o que indica que leva já entre três e quatro anos a viver no Egito faraónico. Parece que não deseja regressar ao nosso tempo...

   Como ninguém lhe riu aquela piada, se era isso o que pretendia, continuou a falar.

 

– Quem ia pensar que uma pessoa com toda a carreira por diante, professor de Física na nossa Universidade se ia prendar tanto de um tempo tão afastado de nós e no qual, fizer o que fizer, não deixará nem a mais mínima pegada na história? Que podemos fazer?

 

– Não estará a pensar em desconectá-lo, verdade?  – perguntou a doutora Smith. – Temos um protocolo para realizarmos a viagem de regresso e sempre se tem em conta  a vontade do viageiro. A única possibilidade é que tivesse uma morte violenta no passado e assim se ativaria automaticamente o processo de retorno. Mas esse não é o caso!

 

– Levamos apenas uns dias com ele conectado à máquina – interveio Edward Morell. – Mas sabemos que leva já uns anos a viver no Egito. Que passaria se morrer no passado de morte natural? Que passaria se viver toda a vida lá? Não afetaria ao corpo que se encontra aqui? Morreria realmente ou não?

 

– Não o sabemos – disse Ivánov. – Talvez neste caso improvável o cérebro dele morresse realmente. Tende em conta que para o seu cérebro um ano continua a ser um ano, embora para o corpo físico apenas passe um dia...

 

– Aguardemos – comentou a doutora Brown. – Quantos anos pode viver uma pessoa no Egito Antigo? Vinte? Trinta? Quarenta anos? Podemos esperar umas semanas e ver que ocorre. Mas eu opino que voltará à consciência aqui, apesar de que decidisse passar o resto dos seus dias lá.

 

– Pois sinto discrepar – interveio Edward Morell. – O corpo físico não perecerá, porque embora para ele passem vinte, trinta ou quarenta anos, aqui passarão apenas uns dias. Mas, será o mesmo para o seu cérebro? As lembranças da sua vida no Egito continuam armazenando-se nele, como se estivesse a viver uma vida normal... Quem nos pode assegurar que as suas células cerebrais não acabem morrendo ou que envelheçam significativamente?

 

– Os estudos que realizei indicam que não existe nenhum dano cerebral na viagem – interveio Ivánov. – Comprovei-o numerosas vezes.

 

– Mas todos os viageiros regressaram por sua vontade – replicou o doutor Morell. – Será o mesmo para uma pessoa que decide permanecer ali durante toda uma vida negando-se a regressar?

 

– Verdadeiramente, nunca pensei que tal coisa pudesse acontecer – confessou Ivánov. – Jamais se me passou pela cabeça a ideia de que uma pessoa pudesse passar anos e anos num mundo alheio, sem mostrar nenhum desejo de retomar a sua vida diária.

 

   Entre as pessoas presentes naquela Sala de Juntas, alçou-se uma muralha de silêncio. Cada um olhava para a pessoa que se encontrava ao seu lado, aguardando a que alguém falasse. O silêncio fez-se ainda mais pesado. Ninguém disse nada.

Ângelo Brea

 

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