A PANDEMIA

    Pelos vidros manchados de pó de anos, observei a vasta extensão, outrora verde e exuberante. Os incêndios reduziram o mato a algumas árvores dispersas ou a pequenos grupos de pinheiros esquálidos e secos. Também resistiram, com uma teimosa constância, alguns eucaliptos, que se elevavam sobre os pinheiros, como guardiões de um mundo extinguido. No entanto, aquela relva verde que formava os vastos campos onde pastavam outrora centenas de vacas era apenas uma lembrança perdida. Como botava de menos o verde da paisagem! Também mudara o clima, tanto que até se diria que agora vivíamos numa região diferente, e não numa zona que fora sempre de clima atlântico. As chuvas, que quando era criança podiam ultrapassar os mil e quinhentos centímetros cúbicos ao ano, reduziram-se a um terço e o clima era mais parecido ao que havia antes no Mediterrâneo do que se aguardaria para uma terra a escassos quilómetros do oceano Atlântico.

 

  E o pior não era aquilo. Para nada. Nos últimos vinte anos alastraram pelo planeta até quatro pandemias globais. Duas procediam do sudoeste asiático e foram bem estudadas. O problema era que o resto não se sabia bem de onde surgiram. Os primeiros casos apareceram quase ao mesmo tempo por zonas que não tinham comunicação possível. Que mais dava se tinha começado nas estepes russas ou na floresta boreal canadense! O que importava era que matara milhões de pessoas. Agora essas raras enfermidades conviviam com a gripe estacionária e nunca se sabia qual nos contagiaria antes ou de que morreríamos.

Já era algo comum, durante essas épocas difíceis, sair à rua com uma máscara facial e umas luvas descartáveis nas mãos. E isso que abandonara a cidade por um pequeno troço de terra no campo, onde cultivava alguns alimentos que na cidade alcançavam preços proibitibos. Em qualquer caso, tinha feito bem. As cidades eram agora lugares decadentes, violentos e terrivelmente assustadores. Aquele mundo em que vivera na minha adolescência e juventude já nunca voltaria. Já me tinha feito à ideia de que nunca o veria mais.

 

  Olhei para o céu. Na distância, um grupo de aerocarros percorria a estrada que se dirigia a Santiago ou, então, volvia dela. Das minhas terras viam-se com simples pontos de cor, como gaivotas que passavam com rapidez perante os olhos.

 

  – Vou sair! – disse-lhe à Helena, a única irmã que me quedava. Estávamos sentados juntos na cozinha, a tomar pequeno-almoço. A televisão, com o volume muito baixo, fazia-nos companhia. Estava a ponto de começar o noticiário.

 

  O seu filho António, de doze anos, passava as horas colado ao computador. Agora estava na sala de estar. Assomei a cabeça e olhei para ele para despedir-me. O menino ergueu os olhos e movimentou levemente a cabeça, sem dizer nada, voltando-os de imediato à tela do computador.

 

  Apenas quedávamos nós três do que tinha sido a nossa família! Nos últimos anos morrera o meu irmão mais velho e a minha mãe, que era o último familiar direto que nos ficava. Talvez por isso vivíamos todos juntos na minha casinha rural. Ao menos assim não tinha de viver sozinho e podia falar com alguém. Sem mim, Helena e o seu filho não teriam sobrevivido à última pandemia.

 

  Helena olhou para mim, enquanto acabava de colocar as luvas.

 

  – Tem cuidado. A ver o que tocas – advertiu. Levava dizendo a mesma frase os últimos seis meses. – E não fales com ninguém.

 

  Assenti, sem dizer nada. Era evidente que não ia falar com ninguém que pudesse contagiar-me qualquer enfermidade.

 

  – Sabes? – confessei. – Caso este ano haja outra pandemia como as dos últimos anos, o mundo não conseguirá recuperar-se.

 

  – Recuperar-se? – riu ela, a mostrar os seus dentes amarelos. – Da última ninguém se recuperou.

 

  – Ao menos estamos vivos! – apontei.

 

  Ela sorriu e olhou para mim com olhos tristes.

 

  – Isto não é viver, apenas sobreviver – mussitou.

 

  Esta vez não respondi. Peguei na espingarda (não devo esquecer nunca a espingarda!) e abri a porta que dava ao jardim, por chamá-lo de alguma maneira, que havia diante da nossa casa. Chamá-lo jardim era uma metáfora, é claro.

 

  Nada mais pôr um pé no exterior, ouvi as vozes dos locutores do noticiário, que minha irmã acabava de ligar. Do marco da porta, observei a paisagem. Dei um par de passos e ouvi como ela me chamava de dentro. Conhecia bem aquele tom de voz. Punha-o quando estava assustada. Entrei na cozinha e me dirigi ao lugar onde estava a televisão.

 

  – Outra vez! Passou outra vez!

 

  – Quê?

 

  – Dizem que está a começar uma nova pandemia.

 

  – Não pode ser! – exclamei. – Levamos quatro em vinte anos. Onde começou esta? Outra vez na China?

 

  – Cala um momento e ouve!

 

  A locutora falava-nos de que milheiros de animais estavam a morrer nas quintas e nas granjas de todo o mundo. Já havia casos na Europa, na América, no Extremo Oriente… Os animais afetados desenvolviam com rapidez os sintomas da enfermidade, para morrer em menos de um dia. Parecia que esta vez não afetava os seres humanos. Quando um animal se infetava numa granja, morriam galinhas, frangos, leitões, vacas ou porcos em questão de horas… A televisão mostrava agora o interior de uma explotação de galinhas. Ali dentro devia haver duzentos mil cadáveres, em montões enormes. Apenas se viam superviventes. Três ou quatro animais que se movimentavam como autómatos, até acabarem por sucumbir.

 

  – Espero que esta vez não afete os seres humanos – murmurei, dando voz aos meus desejos.

 

  Continuei a ouvir as notícias. A locutora resolveu as minhas dúvidas. Naquela mesma quinta foram encontrados os proprietários, um casal com dois filhos, mortos nos seus leitos. Parecia que tinham morrido aquela mesma noite.

 

  Lá fora, ouvi como as nossas duas vacas começavam a chamar por mim, para que as ordenhasse. Não podiam esperar mais.

 

  Estive um par de horas com os nossos animais. Tinha muito trabalho por diante. Tínhamos uma parcela de um hectare, da que obtínhamos os recursos para sobreviver. Ao lado da casa, para vigiá-las melhor, colocara três estufas, com produtos hortícolas variados. Dava-me uma enorme alegria ver com cresciam as alfaces, os morangos, os feijões, as ervilhas… Eu tinha sido criado na cidade, quase sem nenhum contacto com a terra, portanto não me cansava de maravilhar-me de que tantos produtos se multiplicavam como por arte de magia, apenas com uns mínimos cuidados.

 

  Dividira aquela parcela em três partes. Dedicara a principal a plantar batatas. Era o produto que mais consumíamos. Sem elas, íamos estar em problemas, o mesmo que se ficássemos sem animais. A segunda dedicara-a a milho e a terceira a hortaliças e para que as vacas pastassem.

 

  Ao rematar ali fora, entrei outra vez em casa. Minha irmã estava colada à televisão e, esta vez, o seu filho também prestava atenção, como se o que diziam lhe afetasse pessoalmente.

 

  – Dizem que a União Europeia é um dos focos principais de contágio e que afetou milhares de granjas. E o pior é que os humanos que consumiram carne ou ovos infetados desses animais também estão a morrer, e com a mesma rapidez do que eles. Desde ontem morreram já sessenta e sete pessoas na União Europeia…

 

  – Morreu alguém aqui? – perguntei.

 

  – Não, ainda não. Contudo, há uma quinta perto de Carvalho que foi contaminada e está submetida a quarentena. Não deixam entrar nem sair ninguém dela…

Era o que sempre acontecia. Eu já estava farto de ouvi-lo. Ultimamente, as quarentenas massivas não serviam para nada. Estaria contaminado o leite ou a carne?

 

  – Disseram se o leite pode estar contaminado? – perguntei.

 

  – Não o sabem – respondeu minha irmã. – Por agora, retiraram todo o leite das estantes, para verificarem se é apto para o consumo.

 

  Durante um par de minutos ninguém disse nada. Eu limitei-me a ver o noticiário. Parecia um caso mais dessas terríveis pandemias que se tinham estendido pelo mundo nas últimas décadas e que dizimaram a população mundial.

 

  – Não posso crer que nos caísse outra em cima!

 

  As cifras continuavam a crescer. Havia já noventa e sete mortos…

 

  Ia dizer qualquer coisa quando ouvi soar o telefone móvel. Tínhamos poucos amigos e nenhum familiar vivo, ao menos parentes próximos. No ecrã tátil do telemóvel observei que se tratava do senhor Manuel, o meu vizinho.

 

  – Olá, Manuel! – cumprimentei-o. – Como estás?

 

  – Estás a ver a televisão? – perguntou, alarmado, sem responder a minha pergunta, como se não tivesse ouvido nada do que eu dissera.

 

  – Estou a vê-la – respondi. – Parece preocupante.

 

  – A mim dá-me medo – disse Manuel. – A última pandemia acabou com os meus pais e a anterior com a minha esposa. Que vai fazer esta? Acabar com os meus filhos ou comigo?

 

  – Olha, Manuel. Fica tranquilo. Ainda não sabem de que se trata. Talvez ainda possam controlá-lo…

 

 

  Aguardei a sua intervenção. Sempre que estoirava uma pandemia no mundo ele via uma mão negra detrás de tudo. Às vezes eram os chineses. Outras os norte-americanos, ou os mercados, ou os especuladores, ou as farmacêuticas, ou, até, os extraterrestres… Que seria esta vez?

 

  – Acho que foi a água da chuva.

 

  – Quê?

 

  – A água da chuva – reiterou. – Ontem choveu e hoje tenho metade das alfaces consumidas, como se lhes lançasse chuva ácida e não água.

 

  – Pois. Eu não reparei nisso. Apenas vi os legumes e as verduras que cultivo nas estufas. Não tratei de tudo o que cultivo ao ar livre.

 

– Pois vai ver. Ah! Outra coisa. Não comas nada que tenha tocado a água da chuva. E não lhes deixes beber dessa água aos teus animais. Dá-lhes água da trazida ou do poço.

 

  Quando desligou, fiquei a pensar no que me tinha dito. Helena, que me via preocupado, perguntou-me que acontecia e eu expliquei-lhe qual era a estranha hipótese que o nosso vizinho tinha aventurado. Helena e o seu filho ouviram-me com atenção. Ao final, não lhe pareceu uma ideia assim tão louca.

 

  – A sério ides acreditar no que diz ele? Não sabeis que sempre está a falar de conspirações? É um homem meio paranoico...

 

  – Já. Já o sei – interrompeu-me a minha irmã. – No entanto, é algo que podemos comprovar facilmente. Vamos ver as alfaces e veremos se ele tem razão no que diz.

 

  Tinha bastante sentido, então saímos os três ao exterior, cruzamos por diante das três estufas, da granja das galinhas e do estábulo das vacas e nos dirigimos à parcela onde cultivava batatas, milho e legumes.

 

  Ainda se viam alguns rastos das suaves precipitações da noite anterior. Se tivessem acontecido quando eu era criança, não teria deixado de chover durante todo o dia, mas agora mesmo a água começava a escassear. Seguramente haveria que chegar a racioná-la, como em tantos outros lugares da península e do mundo.

O primeiro pedaço de terra cultivado era, precisamente, o dos legumes e hortaliças. Ali, num cercado, cultivava as alfaces. Tinha-as plantado em viveiros de sementes artificiais, específicos para elas. Em cada um dos espaços quadrangulares em que se dividia, crescia agora uma pequena alface, preparada para ser transplantada no momento propício.

 

  A primeira coisa que nos chamou a atenção foi o aspeto que apresentavam. Pareciam como se lhes tivesse faltado água durante dias e estivessem a ponto de secar. As folhas, que deveriam apresentar um aspeto lustroso e vivo, estavam meio murchas e sem brilho.

 

  – O senhor Manuel tinha razão! – exclamou Helena. – Que não se te ocorra comê-las ou dá-las de comer aos animais.

 

  – E que fazemos então? – perguntou, pedindo-lhes qualquer conselho que me pudesse dar.

 

  Pensei que falaria a minha irmã, mas esta vez foi o seu filho quem falou.

 

  – Vi na Internet numa ocasião que um dos remédios com que detiveram a peste bubónica foi quando queimaram todos os objetos que tinham estado em contacto com os infetados. Assim foi como a peste que havia em Londres, em certa ocasião acabou por desaparecer.

 

  – Que queres dizer, que o queimemos tudo? – perguntei, incrédulo.

 

  – Não, não – respondeu o rapaz, acompanhando a resposta com uma negação com a cabeça. – Apenas haveria que queimar os legumes ou as plantas que foram afetados por esta chuva tóxica. Não digo nada das coisas que crescem nas estufas, já que estiveram a resguardo.

 

  – Bom. Ainda assim é uma mágoa ter de queimar uma boa colheita – comentei. – Venha, vamos ver as batatas e o milho!

 

  Cruzamos o campo até chegarmos ao pedaço de terra, uns seiscentos metros quadrados, que destinava a plantar milho.

 

  Naquela época do ano, o milho tinha perto de um metro de altura. Ontem, precisamente, estivera retirando as más ervas e observando as espigas. A mudança era considerável. Ao igual que as alfaces, as folhas estavam descoloridas e murchas. Muitas delas apresentavam manchas brancas e amarelas, em pequenos círculos, como se alguma espécie de praga as tivesse infetado.

 

  – Estão iguais! – exclamou Helena. – Pode ser que o nosso vizinho tenha razão, para variar.

 

  – Seria a primeira vez, ainda que não me estranharia – admiti. – Que fazemos? Queimar toda a colheita não me parece uma boa ideia.

 

  – Vamos ver as batatas – indiquei.

 

  Ao chegarmos ali, observamos que, por alguma razão, as folhas das batatas não estavam tão mal como o milho. Via-se que algo as tinha afetado, mas ainda assim havia muitas plantas que pareciam ter um aspeto saudável.

 

  – Talvez as batatas tenham sofrido menos. Quiçá como crescem para abaixo, na terra, não se vejam tão expostas. Bom, é apenas uma hipótese.

Helena olhou a plantação com ar sério.

 

  – Não o sei. Isto é um bocadinho assustador. Começo a sentir-me como nas outras pandemias que vivi. Tenho medo.

 

  Não sabia que dizer a isso.

 

  – Voltemos para casa. Talvez digam alguma coisa na televisão.

 

  Enquanto regressávamos, Helena ia a falar entre dentes.

 

  – Se alguma coisa aprendi das últimas pandemias é a não acreditar em nada, particularmente no que dizem os políticos. Sempre estão a ocultar a informação.

 

  Tinha razão naquilo. Sempre começavam tratando de minimizar a letalidade dos novos vírus e, quando os estados começavam a estar ultrapassados pela situação, os governos viam-se na necessidade de sancionar medidas gravemente impopulares ou prejudiciais para eles ou para a economia, como a quarentena, a reclusão forçada, a proibição de realizar viagens interiores ou internacionais, o fechamento das fronteiras terrestres, o fim do tráfico aéreo e a nacionalização de empresas básicas. No entanto, aquelas economias de guerra tampouco solucionavam nunca o problema, até fazer com que milhões e milhões de pessoas acabassem por contagiar-se ou morrer. De tanto proliferar, este mundo parecia-se cada vez mais com um filme de terror.

 

 

*

 

 

  Aquilo já o tinha vivido muitas vezes nas últimas décadas: estar colado à tela da televisão para receber até à última gota de informação ou entrar nas redes sociais para conhecer as notícias que para alguns meios de comunicação não eram tão importantes. Foi dessa maneira que me inteirei de uma circunstância que podia avaliar a hipótese do senhor Manuel. Uma empresa chinesa de produtos químicos sofrera uma explosão nas suas instalações, que provocou um escape químico de uma planta de produção. Ao começo o governo chinês tratara de tapá-lo, mas quando morreram algumas dúzias de pessoas por problemas respiratórios nas proximidades da fábrica, a censura nas redes fez-se total. Contudo, a notícia, que não confirmara o governo chinês, aparecera em um boletim publicado em Taiwan, ao que o governo chinês tratou de desacreditar uma e outra vez, mesmo com ataques informáticos contra a sede da publicação. Aquilo convenceu-me de que era possível que algum produto químico extremamente nocivo tivesse sido emitido à atmosfera e estivesse a espalhar-se por todo o planeta. Por que nenhum governo ou nenhum meio de comunicação ocidental informava de aquilo? Que passara? Era que estavam todos comprados?

 

  O pior de tudo foi saber que a explosão tinha acontecido havia duas semanas e que ninguém alertara a sociedade. Seria possível que um agente químico pudesse afetar as culturas ou acabar com os animais a milhares de quilómetros daquele país?

 

  Durante dois dias neguei-me a acreditar na certeza daquela ideia. Tampouco me atrevia a queimar as culturas, porque eram o nosso meio de vida e o que nos dava sustento. Um estranho fato que presenciei pela tarde ajudou-me a decidir-me. Encontrava-me sentado no exterior da minha casa, a olhar com preocupação para as minhas terras, quando observei como um par de corvos, de asas pretas como o azeviche, pairava sobre o campo de milho, até acabar por pousar entre umas plantas. Estiveram ali algum tempo, perdendo-os de vista. Pensei que se iriam nuns minutos, mas não foi assim. Quando contei três minutos, ajustei a máscara facial e as luvas e me dirigi ao campo de milho. Não tardei em ver os corvos. Estavam no lugar onde os vira pousar-se. Os corvos estavam tão quietos como se fossem esculturas de mármore preto. O normal seria que erguessem o voo e que fugissem, mas não foi assim. Peguei num pauzinho e toquei os corpos, com o extremo. Os corvos estavam tão mortos como aquele pau. Como não queria expor-me a tocar os cadáveres, apesar das luvas que usava, peguei noutro pau e assim, usando os dois paus como fariam os chineses para comer, retirei um dos corpos e o pousei no solo, a uns três passos da última fileira cultivada do campo de milho. Fiz o mesmo com o segundo corvo.

 

  Era óbvio para mim, sem ser nenhum experto, que a morte daqueles animais estava relacionada com algum agente químico presente nas plantas ou na terra que havia entre elas. Isso explicaria a rapidez com a que os animais morreram.

 

  Regressei ao estábulo e procurei um bidão de gasolina para queimar os corpos daquelas duas aves. Não sabia se estava a fazer o correto. Talvez ao queimar os cadáveres os agentes químicos presentes nos corpos acabassem por regressar à atmosfera. No entanto, era um dilema que não me importava demasiado. Queimei os corpos sem contemplações, mas tive a precaução de retirar-me rapidamente de ali, para não respirar o fumo, e regressar à minha casa. Da porta de entrada observei as chamas durante o tempo que estiveram ativas. Devido à distância e também pela leve brisa que havia, que soprava em direção contrária (era algo em que não tinha pensado), não me chegou ao olfato nenhum cheiro.

 

  Helena saiu ao ver-me ali plantado, com as luvas e a máscara de proteção e levando ainda o bidão de gasolina na mão. Era estranho até naquela situação, assim tive de explicar-lhe o que tinha acontecido. Pensei que a tranquilizaria que tivesse queimado os corpos. Ao contrário, observei a mesma expressão que já lhe vira nas anteriores pandemias, quando a morte nos golpeava tão de perto, como a tantas famílias no mundo.

 

  – Cada vez estou mais assustada – confessou. – As últimas pandemias eram transmitidas entre pessoas, como se se tratasse de uma gripe, mas esta parece muito diferente, como se todo o meio ambiente estivesse contaminado. E sabes? Já vão uns trezentos mortos no país e uns três mil na Europa. Em três dias! E os animais não deixam de morrer. Há quintas inteiras onde não fica um animal vivo. Ademais, já confirmaram que se uma pessoa come carne ou ovos contaminados, acaba por morrer no prazo de horas ou dias…

 

  – Alguém comentou que o meio de transmissão poderia ser a chuva? – perguntei.

 

  – Não, não – negou. – Estiveram a entrevistar pessoas de todos os âmbitos científicos e nenhum sabe explicar que está a acontecer.

 

  – Eu já me decidi – confessei. – Vou queimar toda a colheita de milho, os legumes e as hortaliças. Com as batatas vou aguardar. Parece como se não seguissem o mesmo patrão que o resto de culturas.

 

  – Por que será?

 

  – Talvez o motivo seja que as batatas estão enterradas, mas é apenas um pressentimento, porque não posso assegurá-lo.

 

  – Quando queimarás o milho? – perguntou a minha irmã. Ainda que não o disse, pareceu-me que na sua voz havia um tom de surpresa, como se estivesse assustada.

 

  – Agora mesmo – afirmei. – Não quero aguardar nem um minuto mais.

 

  – Vai ser terrível para os nossos animais! – exclamou ela. – De que vão alimentar-se?

 

  – Não o sei – respondi, secamente. – Já o pensarei quando chegar o momento.

 

  A partir desse instante, vestido como se fosse um doutor que estivesse a lidar com uma guerra bacteriológica, com luvas, máscara, óculos e um desses equipamentos de proteção individual (que conservava da última pandemia), comecei a cortar as plantas de milho que restavam, queimando-as de imediato em um grande lume que preparei no meio da parcela.

 

  Foi um trabalho cansativo. Contudo, se queria conservar o que ainda restava, o lume devia estar sempre controlado. Tampouco podia arriscar-me a que as chamas prendessem nas estufas. Aqueles três recintos, cheios de comida, eram o que nos podia salvar, como se de uma questão de vida ou morte se tratasse.

Quando o Sol se pôs, tinha acabado com dois terços de todo o campo de milho. Estava exausto. Assim, a primeira coisa que fiz foi lavar o fato, as luvas, a máscara e os óculos com desinfetante. Aquele material devia usá-lo mais vezes, já que não contava com mais recursos, pelo que reutilizá-lo era a única opção possível.

 

  Quando ia entrar em casa, da soleira olhei para a fogueira. Ainda seguia a arder, embora as chamas já estivessem reduzindo-se consideravelmente. Havia zonas nas que unicamente quedavam brasas. Umas línguas de lume amarelo, de um palmo, ardiam aqui e acolá, dando àquela cena um aspeto mágico. De repente, senti a chamada da tribo, aquela marca indelével situada no mais profundo da memória que tínhamos como seres humanos, de quando o lume era o único que podia lutar – e vencer – as sombras da noite. Cada vez que via o lume arder assim, algo se comovia no meu interior.

 

  A noite já se aproximava. O céu era de uma cor azul escura. Ademais, tinha arrefecido. Algumas estrelas começavam a aparecer na abóbada celeste. Olhei outra vez para o lume e entrei em casa.

 

  Fiquei muito tempo a ver as notícias desde que acabei de jantar. Por mim ficaria toda a noite, mas não podia fazê-lo, porque devia erguer-me para ordenhar as vacas. Bom, também podia ficar esta noite e deitar-me depois de ordenhá-las, para recuperar o sono… Aquela não era uma boa ideia, assim fiquei até meia-noite e depois me retirei ao meu quarto.

 

  Estava muito cansado para conciliar o sono com facilidade, então peguei num livro e li um bocadinho. Quando senti que as pálpebras começavam a pesar-me, desliguei a luz e fechei os olhos, adormecendo de imediato. Durante a noite tive vários sonhos estranhos. Num deles sonhei com a minha mulher, como se ainda estivesse viva. Como a maior parte dos sonhos que tinha, foi algo sem sentido, com saltos temporais e de local. Quando acordei, lembrava apenas fragmentos, como se lesse um livro e salvasse dele, após um naufrágio, apenas um par de folhas.

 

 

*

 

 

  Hoje tinha o objetivo de retirar as últimas plantas de milho que restavam e foi isso o que estive a fazer até às seis da tarde, quando rematei. Igualmente ao dia anterior, fiz também uma fogueira com todas aquelas plantas. Para fazê-lo mais vistoso, decidi plantar-lhe lume ao cair a noite, como se se tratasse de uma das fogueiras de São João, que fazíamos quando eu era criança. Ao lembrar aquelas fogueiras, quando ainda viviam os meus pais, estive a ponto de emocionar-me.

Quando lhe plantei lume, botei a correr para ver o lume da soleira da casa. Minha irmã e o seu filho não se quiseram perder o espetáculo. Nas nossas monótonas vidas, qualquer acontecimento não usual ganhava o adjetivo de extraordinário.

 

  Ao estarmos ali fora, soou o meu telefone móbil. Era o nosso vizinho.

 

  – Que está a passar? Vejo lume daqui!

 

  Parecia assustado. Tive de explicar-lhe tudo desde o princípio e acabar contando-lhe o dos dois corvos que vira morrer e a minha decisão de queimar tudo.

 

  – Você fez o correto! – admitiu. – Isso dos corvos é um aviso do que vai passar! Ainda não morreu fauna selvagem noutros lugares, ao menos não ouvi notícias sobre isso, mas sei que acabará acontecendo. Penso somente que este mal também nos vai levar a todos com ele, não apenas aos animais.

 

  – Senhor Manuel, você também vai queimar a sua colheita ou pensa aguardar que o governo diga algo?

 

  – Não, não vou aguardar. Amanhã mesmo vou começar! – exclamou. – Vou dizer aos meus filhos que me botem uma mão para acabar antes.

 

  – Pois eu amanhã começarei com as alfaces e o resto de legumes e hortaliças. Dá-me mágoa queimar os morangos e os tomates…

 

  – Quando estive aí, o ano passado, reparei que cultivava morangos e tomates nas estufas…

 

  – E é assim! – reconheci. – E muitas coisas mais… Mas é uma grande perda para mim. Se não recebesse uma boa reforma, íamos passar mal.

 

  – Não se queixe, meu amigo – disse, conciliador –, eu estou aposentado e recebo uma miséria e não tenho mais que o que possa plantar aqui.

 

  – Bom, senhor Manuel, amanhã falamos. Devo vigiar que as chamas da fogueira se não acabem estendendo.

 

  O senhor Manuel deu-me as boas noites e desligou. Tinha-lhe dado uma desculpa, porque agora não queria falar, senão ver como as chamas bruxuleavam e faziam estranhas formas sobre as plantas de milho, atingindo as maçarocas e convertendo-as em uma miríade de faíscas que se elevavam em direção às estrelas.

Aguardamos os três a que o lume praticamente se extinguisse. O filho da minha irmã parecia ter gostado do espetáculo e perguntou se amanhã podia ajudar-me a fazer outra.

 

  – Não! Sinto-o – neguei-me. – Já viste como me equipei para estar protegido do vírus ou do que seja o que for que se trate. Não posso arriscar-me a que fiques contaminado. Lembro o mal que o passamos nas anteriores pandemias e a terrível morte dos seres queridos, sem podermos fazer nada por eles e sem que os hospitais pudessem tratar a enfermidade. Quando acenda a fogueira poderás vê-la daqui, é apenas o que posso fazer.

 

  Helena, minha irmã, deu-me a razão e apoiou cada uma das minhas palavras.

 

  – Não podemos arriscar-nos a perder ninguém mais. Ficamos apenas nós três e devemos estar juntos para sobreviver.

 

  Fiz uma pausa, dei uma última olhada às chamas que já se extinguiam, e ordenei:

 

  – Venha, entremos! Tenho uma fome de lobo.

 

 

*

 

 

  Ao dia seguinte ouvi nas notícias algo que me deixou pensativo e preocupado. Já tinham sequenciado o ADN do vírus e confirmaram a sua letalidade. Atuava contra todos os mamíferos, do ser humano à última das espécies do planeta. Por isso aquela taxa de mortalidade nas granjas e quintas de animais. O contato com qualquer ser infetado provocava que todos os mamíferos fossem suscetíveis de contágio e morte. Eram horríveis notícias. De facto, o número de mortes em apenas uns dias superava os cem mil em todo o mundo.

 

  Quando saí à finca, fiquei muito nervoso ao ver como um homem estava no valado da finca, a olhar para dentro. Tinha estacionado o seu flamante aerocarro na berma da velha estrada e não deixava de escrutar a minha propriedade. Chamou por mim. Sabia que aquele homem ia dar-me problemas.

 

  – Senhor, senhor! Pode prestar-me atenção? Venha, faça o favor.

 

  A minha irmã ouvira a sua voz e saiu também ao exterior. Trazia a espingarda que eu tinha esquecido. Sabia que nunca devia sair sem a espingarda, mas aquela vez ela veio na minha ajuda.

 

  – Helena, há outra espingarda no baú da cozinha. Pega nela e sai rápido.

 

  – Senhor, senhor! – continuava a berrar aquele homem do valado.

 

  Verifiquei que a espingarda estava carregada e tirei a trava de segurança. Não apontava para ele, mas tinha a arma preparada para disparar.

Dei três passos em direção ao valado para olhá-lo melhor. Teria uns cinquenta anos. O cabelo era castanho, com muitas cãs. Vestia de maneira informal, sem gravata nem fato. Usava uns óculos com lentes de vidro transparente.

 

  –Mostre-me as mãos! – ordenei.

 

  O homem ergueu as mãos à altura da cabeça, como se estivesse a atracá-lo.

 

  – Que deseja?

 

  Disse-me como se chamava, a sua profissão e onde vivia, mas a mim aqueles dados não me interessavam em absoluto.

 

  – Passava por aqui – disse, a assinalar a aeroestrada que sulcava o céu a dois quilómetros de distância e reparei na sua propriedade. Parece que cultiva legumes e hortaliças em abundância e que tem muitos animais…

 

  Fez uma pausa e disse:

 

  – Não tenha medo, homem, e deixe de apontar-me.

 

  Como viu que ignorava as suas palavras e que continuava a apontar com a espingarda, não diretamente para ele, mas sim para os pés do valado, continuou a falar:

 

  – Queria comprar-lhe alguns produtos da sua horta. A minha mulher diz que os produtos naturais são os melhores. Posso pagar bem. A preço de supermercado na cidade.

 

  – Pois a esse preço, compre no supermercado – respondi, secamente. Tinha dito uma piada, sem querer, mas não dava para rir.

 

  – Ao que me refiro é que pode obter um bom rendimento e sem nenhum intermediário, que são os que elevam os preços. Ademais, eu…

 

  – Não me interessa – interrompi. – Apenas tenho para o meu próprio consumo.

 

  Ia continuar com a minha negativa, mas ele interrompeu-me e insistiu.

 

  – Com o dinheiro que lhe poderia pagar pelos seus produtos, poderia comprar qualquer coisa que desejar.

 

  Olhei para trás e reparei que Helena já se encontrava na soleira da porta, a olhar com olhos soturnos para o estranho. Tinha a espingarda na mão, mas apontava para o solo.

 

  – Bom – disse, para tratar de desfazer-me dele –, se tiver algo que vender, posso telefonar-lhe e informá-lo.

 

  Ao estranho iluminaram-se-lhe os olhos.

 

  – Que bom! Poderia vir amanhã para comprar-lhe algo?

 

  – Parece que não me quer ouvir, ou que se me ouviu não quer escutar… Digo que, se em algum momento tiver a intenção de vender, que lhe telefonarei, não que venha por aqui quando quiser, sem que eu lhe telefone. Compreende?

 

  Um gesto de desapontamento nublou-lhe o rosto. Parecia zangado.

 

  – É um bom negócio. Se não o aproveita vai arrepender-se.

 

  – Bom. Desculpe. Mas tenho muito trabalho. Por que não me deixa o seu número de telefone e eu me porei em contacto com você?

 

  – Seguro que me vai telefonar? – perguntou, como se lhe fosse a vida nisso.

 

  – Com certeza – menti. – Se tiver qualquer coisa que vender será o primeiro a quem chame.

 

  – Esta semana?

 

  – Como? – Aquele indivíduo começava a zangar-me. E muito. De repente, tive uma ideia.

 

  – Talvez poderia conseguir-lhe um saco de batatas para dentro de uns dias…

 

  – A sério? Que bom!

 

  – Deixe-me o número de telefone e eu telefonarei.

 

  – Aqui tenho a minha tarjeta – disse e alargou para mim uma pequena tarjeta de visita de cartolina. Era incrível que alguém tivesse ainda tarjetas de visita. Que classe de dinossauro era aquele homem?

 

  – Deixe-a ficar aí, sobre o valado. E afaste-se – ordenei.

 

  Aquilo pareceu zangá-lo.

 

  – Eh! Que não tenho a peste!

 

  – Sabe? Eu não posso sabê-lo. E nos últimos de anos perdi demasiados seres queridos.

 

  Aquilo convenceu-o. Ao menos, deixou ali a tarjeta, com uma pedrinha em cima, para que o vento não a levasse.

 

  – Estarão as batatas em dois ou três dias, verdade?

 

  – É possível – respondi, displicente.

 

  – Poderia dar-me o seu número de telefone? Assim poderia telefoná-lo e…

 

  – Não! – neguei-me, outra vez, mas nesta ocasião elevando algo o tom de voz. – Já lhe tenho dito que o chamaria eu.

 

  O indivíduo ficou ali plantado, a olhar para mim. Que estaria a aguardar?

 

  – Não vai pegar na tarjeta?

 

  – Quando o vir entrar no seu carro, pegarei nela.

 

  Retirou-se, a resmungar, até ao seu carro. Olhou para mim com um olhar carrancudo e gesto contrariado. Era óbvio que não tinha gostado como se saíram as coisas. Aguardei a que entrasse no aerocarro. Até vê-lo acender os motores e se elevar vinte metros, não lhe tirei a vista de acima. Depois vi o seu rosto através dos vidros, dando uma última olhadela às minhas terras, em especial às estufas onde cresciam os meus legumes e hortaliças e ao curral onde guardava os meus animais. Logo se dirigiu à aeroestrada de Santiago.

 

  Fiquei com uma sensação muito estranha depois de falar com aquele indivíduo. Estava seguro de que não era trigo limpo.

 

  Helena aproximou-se a mim. Levava a espingarda na mão direita, a apontar para o chão. Eu fiz o mesmo.

 

  – Não vás pegar na tarjeta?

 

  – Não penso tocá-la – respondi. – Poderia estar contaminada.

 

  – Por que lhe disseste o das batatas? Não ias queimá-las?

 

  – Sim. Foi uma coisa estúpida. Era para livrar-me dele, ainda que não fosse uma boa ideia. No entanto, se tudo estiver contaminado, não me importaria vender-lhe essas batatas. Talvez estejam boas e se possam comer. Poderíamos utilizá-lo como um coelho de índias. Se ficasse bem de saúde, depois de as consumir, então nós também poderíamos aproveitá-las. Que te parece?

 

  – E se morre ele ou alguém da sua família por culpa das batatas? – perguntou Helena, como se aquilo fosse um crime.

 

  – Que mais dá! Se todas as colheitas estivessem contaminadas, a maior parte da gente vai morrer. A única coisa que passaria é que morreria após uma boa comida.

 

  – Tudo isto começa a dar-me medo – afirmou.

 

  – É o mesmo que penso eu. Talvez precisemos montar guarda durante a noite para proteger as nossas estufas. O mau é que temos apenas duas espingardas e umas poucas dúzias de cartuchos.

 

  – Não fales nisso! – exclamou. – Dá-me medo pensá-lo.

 

  Foi então que ouvi que soava o meu telemóvel. Era o senhor António. Tinha visto o aerocarro. Não me deixou em paz até que lhe contasse, minuciosamente, quem era aquele indivíduo e o que queria. Pensei que se tranquilizaria, mas foi ao revés. Notei que estava muito nervoso. Começou a falar e a falar de coisas inconexas, como ele faz quando não sabe controlar-se. Deixei que se desabafasse, até que, num momento de calma, consegui despedir-me, sem que nem a ele lhe pudesse parecer que tinha sido rude.

 

  Ao longo da manhã não deixei de pensar naquele homem. Talvez o seu propósito fosse respeitável e não tivesse intenção de nos fazer dano. Ou talvez fosse desses homens que são capazes de fazer qualquer coisa por um pouco de comida. Na última década muitos países tinham visto como as suas estruturas de poder ruíam por culpa das pragas que assolavam o mundo. Em muitos deles tinha havido imagens dantescas de assassínios, assaltos a lojas ou supermercados e roubos em casas privadas. Os assaltos a pequenas explotações, como a minha, foram escassos, mas numa situação de fome ninguém estava livre de ver-se atacado. Por isso tinha comprado as espingardas, embora odiasse com todo o meu ser as armas de fogo. Se alguém me puser entre a espada e a parede, talvez acabasse puxando o gatilho por defender as minhas hortaliças e os meus animais. Não podia permitir-me o luxo de perdê-los. O pior de tudo era que com os aerocarros qualquer pessoa podia cruzar os valados e entrar numa propriedade privada. Reconheço que existem estritas proibições para não sobrevoar terrenos, casas ou explotações rurais, obrigando os condutores a seguir as linhas de comunicação marcadas no ar, mas numa situação de catástrofe, sem controlo policial ou sem a presença do exército, tudo podia ruir e converter-se na lei da selva: O mais forte é quem ganha!

 

 

*

 

 

  Quando rematei de ordenhar as vacas, de alimentar o resto dos animais e de dar os últimos cuidados às plantas que tinha nas minhas estufas, entrei a tomar o pequeno-almoço.

 

  A minha irmã e o seu filho estavam tão nervosos como eu. António dizia que a próxima vez havia que receber aquele homem ou qualquer que viesse por aqui, dando um par de tiros ao ar, como advertência.

 

  – Não se te ocorra vender-lhe nada – advertiu, a falar como o faria um adulto. – Depois não poderás negar-te a fazê-lo. Se colocares os teus produtos no mercado, o mercado acabará contigo.

 

  – Dirás connosco – interrompi.

 

  – Vem a ser o mesmo – admitiu. – Esse homem, quando saiba que temos comida para vender, não vai ter a boca fechada. Numa semana teremos vinte pessoas querendo comprar ovos, ou alfaces, ou frangos, ou leite… Sei lá! E não vão atender a razões. Se não vendermos pelas boas, pegarão no que possam pelas más. Aliás, esta pandemia ataca as nossas principais fontes de proteínas, como a carne de porco, de vitela ou de frango. Os principais afetados são os animais mamíferos e as aves de capoeira. 

 

  – Por sorte parece ser que o que cresce nas estufas não foi afetado – riu a minha irmã, nervosamente, a mostrar os seus dentes amarelos.

 

  – Que vou fazer com as batatas? – perguntei.

 

  – Queima-o tudo! – recomendou-me António.

 

  – Penso fazer um pequeno experimento antes – indiquei. – Vou levar uma galinha à parcela das batatas e verei que ocorre. Se tiver a mesma sorte que os dois corvos, já não haverá nada que discutir.

 

  À minha irmã e ao seu filho pareceu-lhes uma ideia genial.

 

  Isso foi o que fiz. Vestido com o fato antibacteriano, que me dava o aspeto de um astronauta doido, levei uma galinha à parcela onde cultivava batatas. Atei-a a uma corda para que não fugisse e retirei-me de ali com rapidez.

 

  Aguardei uma hora e regressei ao lugar. Fiquei estranhado de que a galinha seguisse com vida. Por que seria aquela diferença com o que tinha acontecido com os corvos no campo de milho?

 

  Caminhei lentamente em direção ao meu lar. Quando estive frente às estufas, Helena rociou-me com um líquido desinfetante e eu lavei o fato como se aquela fosse a minha própria pele.

 

  – Parece que a galinha resiste – anunciei. – Está como se não fosse nada.

 

  – Eu sei por que é assim – disse António, com um tom misterioso na voz.

 

  – Ah, sim? Por quê?

 

  – A água da chuva – respondeu, como se o tivesse claríssimo.

 

  Como o meu rosto devia transmitir o meu desconcerto, o rapaz explicou-nos mais extensamente o que pensava.

 

  – A água da chuva estava contaminada o primeiro dia, como nos advertiu o senhor Manuel. Os corvos que se pousaram no campo de milho fizeram isso quando a terra estava algo molhada. Agora, porém, já passaram vários dias e a água da chuva deveu filtrar-se no terreno. Talvez a água contaminada apenas seja mortal durante um breve espaço de tempo, ou talvez o vírus não possa sobreviver um espaço longo de tempo sobre a terra. Se calhar a radiação solar acaba com ele em poucas horas. Sei lá a razão! Que vos parece a minha ideia?

 

  – Como hipótese, tem lógica – admiti –, mas haveria que comprová-lo quando chova outra vez.

 

  – A predição sobre o tempo indicava que ia chover – acrescentou António. Logo, a olhar para as escuras nuvens que se aproximavam, vindas do mar, acrescentou:

 

  – E parece que não vai tardar muito em cair uma boa chuvada.

 

  Olhei de esguelha e tive de admitir que ele tinha razão. O céu estava bastante escuro. Se algo conhecia eu sobre o clima, a chuva ia ser abundante.

 

  – Venha, entremos – ordenei. – Se for verdade que a chuva tem algo que ver com isto, não quero expor-me a ela.

 

  – E a galinha? – perguntou a minha irmã.

 

  – Ah! Pois já a esquecia – admiti. – Vou deixá-la ali. Um bocadinho de água não a vai matar. Se sobreviver, então terei a prova de que a chuva não tem culpa disto que ocorre.

 

  – E se morresse? – perguntou António.

 

  – Ficaria claro que a água da chuva transmite a enfermidade ao meio ambiente e que a partir dele os animais acabam morrendo, transmitindo-se logo a enfermidade também aos humanos.

 

  – Esta é uma situação horrível – disse Helena, com voz histérica. – Quantas pessoas vão morrer esta vez?

 

  – Que mais dá! – exclamei. – Nos últimos anos houve quatro pandemias e, embora a população tenha sido decimada, ainda somos demasiados para um único planeta. É como se a Terra estivesse conspirando contra uma espécie que lhe faz dano.

 

  – Isso já o pensei eu mais de uma vez – disse Helena, esboçando um sorriso triste.

 

  – O pior disto – acrescentei – é que os que mais sofrem são os mais vulneráveis. Os ricos sempre resistem melhor, porque podem tomar medidas extremas e isolar-se do mundo exterior nas suas mansões, nas que possuem recursos suficientes para sobreviverem durante anos. O resto do mundo, como nós, devemos contar com a sorte para não enfermar e com o único objetivo de conseguir sobreviver. Já nos passou tantas vezes que as forças me vão abandonando. Talvez o melhor seja deixar de lutar.

 

  – Não digas isso! – exclamou a minha irmã. – A vida é sempre melhor do que a morte. Outra coisa seria sofrer uma enfermidade incurável ou não poder mover-te, ou ficar sozinho no mundo. Eu, se ficasse sozinha, seria capaz de fazer uma loucura. 

 

  – Não digas isso, mamã! – replicou o seu filho. – Dá azar.

 

  Na televisão estavam a dar as últimas notícias sobre a pandemia. Então mandei que calassem e pus-me a ouvir com atenção.

 

  As autoridades não podiam ocultar, pela expressão dos rostos e pelos gestos compulsivos das mãos, que estavam completamente desbordados pelos acontecimentos. Como tinham feito noutras ocasiões nas que não havia uma vacina disponível, ordenavam uma quarentena preventiva durante quinze dias. No entanto, os serviços epidemiológicos, que nas últimas décadas tinham recebido ingentes inversões, encontravam-se em pleno funcionamento e alguns investigadores auguravam que em menos de um mês já se teria encontrado a vacina.

 

  – Um mês? – perguntou a minha irmã, a falar para os botões. – Para então metade da população já estará contagiada ou terá morrido de fome.

 

  Falou então um cientista que avisou à população de que o melhor seria comer produtos enlatados, evitando os produtos frescos. Indicava que todos os produtos procedentes do campo ou de fábricas cárnicas deveriam ser desinfetados antes de colocar-se ao público. O vírus (agora já afirmavam que estavam a lidar com um vírus letal) era muito mais resiliente do que a gripe estacional e a sua letalidade era muito maior, permanecendo no ar e nas superfícies infetados durante mais tempo. A sua taxa de letalidade elevava-se ao dez por cento (o que era uma cifra enorme), tratando-se de uma enfermidade muito contagiosa. O que botei em falta foi que nos dissessem claramente qual era a origem daquele vírus ou de onde procedia.

 

  O ministro de sanidade transmitiu ao falar tal grau de convencimento, invitando às pessoas a ficarem em casa e a não terem contato com ninguém, que eu também comecei a sentir a mesma apreensão que tinham milhões de pessoas que o estavam a ouvir. Se queria aterrorizar a população, conseguiu-o com largueza.

 

 

*

 

 

  Já deixara de chover. Grandes nuvens escuras tinham toldado a luz solar durante boa parte do dia. No entanto, já se começavam a observar grandes zonas de céu azul celeste e as nuvens eram menos escuras. Animei-me a ver que tinha acontecido à galinha que colocara entre as batatas para fazer de cobaia.

 

  Coloquei outra vez o fato de proteção individual e me dirigi tranquilamente à zona onde plantara as batatas, evitando os charcos e pequenas bolsas de água.

 

  Tinha chovido durante um par de horas e, ainda que o tempo tivesse dado um respiro, tratava-se de uma simples pausa. Pelo ocidente aproximavam-se cúmulos ameaçantes da cor do chumbo. Devia apressar-me, obviando aquelas zonas sem nuvens que se viam no céu, porque aquela situação podia durar apenas uns minutos.

 

  A galinha que deixara atada entre as plantas estava morta e bem morta. Não me estranhou vê-la assim. Que devia fazer com ela? Queimá-la? Enterrá-la? Deixá-la ficar ali e decidir quando melhorasse o tempo?

 

  Pensei rápido. Devia queimá-la. Fiz o mesmo que tinha ideado com os corvos. Desatei a corda e, com um pau, movi o corpo uns poucos metros, à zona onde não havia plantas. Deixei o pau ali e fui apanhar a garrafa de gasolina. Derramei sobre o corpo meio litro de líquido, retirei-me um par de metros e atirei uma bola de papel que previamente acendera. Tive a pontaria suficiente para que acertasse no corpo e começasse a arder com rapidez, apesar de que o terreno onde colocara o corpo estava molhado.

 

  Não aguardei para ver o que acontecia. Não era um espetáculo agradável. Regressei rapidamente, descontaminei o meu fato o melhor que soube, mudei de roupa, também os sapatos e, finalmente, entrei em casa.

 

  – Morreu, não? – perguntou António.

 

  – Efetivamente – admiti. – Isto reafirma a minha ideia de que há alguns vírus que é transmitido pela chuva, contaminando tudo.

 

  – Que vás fazer com as batatas? – perguntou a minha irmã.

 

  – Por mim, deixá-las como estão – respondi.

 

  – Devias queimar tudo, como fizeste com o milho – disse a minha irmã. Parecia ainda mais preocupada que a última vez que faláramos sobre aquele vírus.

 

  – É possível – admiti. – Mas seria um trabalho incompleto, se não retirasse também as batatas. E para isso deveria sachar o campo, o que me levaria dois dias, expondo-me a uma infeção. O sacho poderia rasgar o meu fato com facilidade. Não sei se isso seria causa suficiente para que eu me infetasse, mas não quero comprová-lo.

 

  – Não pensava nas batatas, apenas nas plantas – disse Helena. – E tens razão que é perigoso.

 

  – E por que não as deixas como estão? – apontou António. – O melhor é ficarmos aqui, em segurança, sem sairmos de casa.

 

  – Bom. Quando menos eu devo sair uma hora diária para ordenhar as vacas e dar de comer aos animais. Aliás, levamos bebendo o leite desde o primeiro dia e parece claro que os animais que temos não foram afetados.

 

  – Já. E que faremos quando se acabe o penso? – perguntou Helena.

 

  Olhei para ela e quis dar-lhe uma resposta. No entanto, tinha a mente em branco. Encolhi os ombros e fiquei calado.

 

 

*

 

 

  Choveu durante quase toda a tarde. Duas horas antes do pôr-do-sol deixou abruptamente de chover e em questão de minutos toda a zona ocidental se abriu, aparecendo um céu azul celeste, recém lavado e luminoso. O Sol iluminou alegremente os campos molhados e as colinas, que ficaram douradas. Então, para quebrar aqueles instantes de calma, soou o meu telefone móbil. Era o senhor Manuel. Sempre que ele me telefonava, era porque algo ia mal. Que seria esta vez? Ele cumprimentou-me e eu retribuí o saúdo. Logo, secamente, passou ao assunto para o que em realidade me tinha telefonado.

 

  – Sabes esse indivíduo que queria comprar-te as batatas? Pois também esteve aqui.

 

  – Quê?

 

  – Pois sim. Que homem mais pesado. Nunca vi ninguém mais insistente. Parece que lhe ia a vida.

 

  – E que lhe disseste? – perguntei.

 

  – Tivemos uma conversação praticamente idêntica à que tiveste tu, mas rematou de uma maneira muito diferente.

 

  – Por quê? Ameaçou-te?

 

  – Podes vir à minha casa? Tenho algo que te mostrar.

 

 

  Aquele era um convite muito estranho. Ainda mais numa emergência sanitária como a que vivíamos.

 

  – Não podes contar-me o que aconteceu por telefone? – insisti.

 

  – Por poder, poderia – respondeu, enigmático. – Contudo, preciso que venhas. Sabes que não te pediria algo assim se não fosse algo muito importante. Conhecemo-nos desde há anos. É um favor que quero pedir-te. Se tu me pedisses um favor a mim, sabes que acudiria na tua ajuda.

 

  – Ainda que sejamos amigos – indiquei – vou levar o meu equipamento de proteção.

 

  – Já ia pedir-te que viesses com ele – admitiu. – É o melhor.

 

  Ia perguntar-lhe a razão de que me falasse assim, mas desligou antes que tivesse tempo de formular a pergunta.

 

  Helena e o seu filho ficaram preocupados e me fizeram muitas perguntas que não soube responder. Quase estive a um triz de telefonar ao meu vizinho. Ao final, embora não gostassem de que eu saísse de casa, ajudaram-me a colocar o fato, as botas, as luvas e os óculos e se despediram de mim, como se não fosse fazer uma simples visita a um vizinho, senão como se fosse visitar um moribundo.

 

  A casa do senhor Manuel e da sua família estava mais acima da nossa, numa elevação do terreno, que compartilha com as minhas terras a sua posição elevada. As terras do senhor Manuel encontram-se no mesmo declive, algo mais acima, com melhores vistas e rodeadas pela velha estrada comarcal que unia a cidade de Santiago a Santa Comba. Como havia anos que os aerocarros não a utilizavam, estava descuidada nas bermas, embora o asfalto, liso e firme, sem fissuras nem buracos, pudesse suportar um limitado tráfico de superfície.

 

  O que mais me estranhou enquanto me aproximava era que diante da casa do senhor Manuel estava estacionado, ainda, o carro daquele indivíduo que nos incomodava, querendo comprar os nossos produtos. Que faria ainda ali e por que não se tinha ido embora?

 

  Enquanto subia lentamente a encosta, vi que o senhor Manuel, também com um fato de proteção individual de cor branca, com uma franja azul ao meio, aguardava a minha chegada. Ao ver-me, deixou de montar guarda e saiu ao caminho.

 

  – Olá, amigo! – cumprimentou-me. – Boa tarde.

 

  Respondi da mesma maneira, ainda intrigado pelo que estava a acontecer. Se o capacete de proteção não cobrisse o meu rosto, teria podido observar a minha expressão assustada. Não precisei perguntar nada. Começou a falar e, de um só fôlego, aclarou todas as minhas dúvidas.

 

  – Como podes ver – disse, a assinalar o aerocarro que estava estacionado a apenas uns metros – esse indivíduo também nos visitou a nós. Queria comprar uns frangos para a sua família ou qualquer produto que pudesse oferecer-lhe. Chamou-me a atenção que não usasse um fato de proteção como o nosso, apenas luvas e máscara facial, que lhe cobria boca e nariz. Notei que suava muito e que tossia continuamente. Disse-lhe que não se aproximasse ou ia ver-me obrigado a disparar-lhe com a minha espingarda. A minha ameaça não lhe fez nenhum efeito. Ele continuou a falar e a falar, cada vez mais excitado. Tanto me aborreceu que acabei por vender-lhe uma galinha, a três vezes o seu preço. Aquilo foi como um bálsamo – quase diria que o senhor Manuel tinha sorrido, sob a máscara. – Logo pegou na galinha e entrou no aerocarro. Ouvi-o tossir e tossir. Deu um berro e senti que chamava por mim, pedindo ajuda. Eu estava a olhar para ele, de dentro do valado. Não quis pôr um pé fora da minha propriedade. Até lhe entregara a galinha a distância e o dinheiro deixou-o no chão, sob uma pedra.

 

  – Era estranho que não se tivesse ido embora – continuou a falar. – Pensei que se trataria de um estratagema dele, para fazer-me sair. Todos me pediam que não saísse, que ficasse em casa. No entanto, após meia hora a aguardar, fui ver que acontecia.

 

  – E que se passou? – perguntei, ao fim, vencido pela ansiedade.

 

  – Vem comigo. Tu mesmo poderás vê-lo.

 

  Com extremo cuidado, como se alguém nos estivesse a apontar com uma pistola, aproximamo-nos ao carro. O vidro transparente da janela do lado do condutor permitia-nos ver o interior. Aquele homem estava perante os mandos. Tinha a mão direita na palanca (muitos chamavam-no joystick) que fazia nos aerocarros o mesmo papel que o volante nos velhos carros e a esquerda repousava sobre a perna. Parecia adormecido, mas não era assim. Já não tinha colocada a máscara na cara, senão que agora a tinha sobre o pescoço. Deveu tirá-la ao entrar.

 

  Aquele homem tinha sangrado pelo nariz e pela comissura da boca. A camisa estava manchada de sangue. Também havia salpicaduras de sangue no painel do carro. O homem, era óbvio, estava morto. No assento da direita, a galinha ainda se movimentava, assustada, mas sem fazer ruído.

 

  – Que vamos fazer? – perguntou o senhor Vítor, com a voz quebrada. – Haveria que chamar a polícia, não?

 

  Eu olhei para ele, sem saber que dizer. Logo reparei que todas as pessoas que viviam na sua casa estavam a olhar para nós, da cozinha iluminada. Observei os seus rostos assustados e as expressões tristes.

 

  – Sabes, António, que essa é uma boa pergunta?

 

  Olhei outra vez para a galinha. Já não se movia. Ela também acabava de morrer.

 

Ângelo Brea

 

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